Os bastidores do Claude e a nova estratégia de superapp da OpenAI
Descubra como a ferramenta Jacobian lens revelou os segredos internos do Claude e conheça o novo ChatGPT Work da OpenAI no cenário global de tecnologia.
Entenda como CoreWeave, Nebius e Nvidia articulam acordos de mais de US$ 120 bilhões para impulsionar a infraestrutura global de inteligência artificial.
As gigantes de tecnologia Microsoft e Meta firmaram compromissos financeiros combinados de até US$ 122,2 bilhões com as chamadas "neoclouds" — provedores especializados em infraestrutura de inteligência artificial (IA) como CoreWeave e Nebius —, redesenhando a cadeia de suprimentos de chips e a contabilidade corporativa do setor de tecnologia. O montante, que representa cerca de 90% da receita acumulada nos últimos 12 meses (TTM) da AWS (Amazon Web Services), visa garantir acesso prioritário a processadores de última geração da Nvidia e transferir custos bilionários de investimento em capital para a linha de despesas operacionais.

A escalada dessas parcerias ocorre em um momento em que a Meta expandiu seu contrato com a CoreWeave em US$ 21 bilhões, elevando seu compromisso total com a empresa para US$ 35,2 bilhões, além de fechar um acordo de até US$ 27 bilhões com a Nebius. Pelo lado da Microsoft, as obrigações somam aproximadamente US$ 60 bilhões distribuídos entre a CoreWeave, a Nebius e outras empresas de capital fechado, como a Nscale. Quando somados os contratos apoiados pelas startups de IA OpenAI e Anthropic (cujos valores exatos não foram revelados), os compromissos totais do mercado com essas infraestruturas alternativas superam US$ 145 bilhões, contrastando fortemente com a receita estimada para o ano fiscal de 2026 (FY2026), projetada em US$ 12,6 bilhões para a CoreWeave e US$ 3,4 bilhões para a Nebius.
Do ponto de vista analítico, o mercado de tecnologia observa esse movimento com atenção, uma vez que a demanda por infraestrutura de nuvem de alta densidade pressiona os orçamentos globais de TI. No cenário global, essas neoclouds operam em um ambiente macroeconômico desafiador, onde o crescimento acelerado de receita e do backlog (pedidos acumulados) ainda não se traduz em lucratividade. A viabilidade dessas operações depende da conversão rápida de contratos de energia em capacidade ativa, um processo intensivo em capital que força CoreWeave e Nebius a recorrerem a estruturas de financiamento altamente complexas e circulares, distanciando-se do perfil de fluxo de caixa operacional tradicional das Big Techs.
A vantagem competitiva das neoclouds reside na velocidade de implementação de clusters de GPUs em comparação com os data centers tradicionais das hiperescalas. Enquanto os grandes provedores de nuvem enfrentam cronogramas de construção de múltiplos anos, empresas como a CoreWeave e a Nebius conseguem colocar sistemas em operação em poucos meses. O grupo de inteligência imobiliária comercial JLL reforça esse aspecto ao apontar que o modelo de negócios responde à urgência do mercado:
"As neoclouds podem implantar infraestrutura de GPU de alta densidade em meses, em comparação com construções plurianuais para data centers de hiperescala, proporcionando vantagens cruciais de tempo de lançamento no mercado para empresas que precisam de desenvolvimento rápido de IA."
Em seu formulário de registro de oferta pública inicial (S-1), a CoreWeave destaca a rapidez no fornecimento de chips, afirmando ser uma das primeiras a disponibilizar clusters dos modelos Nvidia H100, H200 e GH200 em escala de produção. A companhia também se posicionou como a primeira provedora de nuvem a oferecer instâncias baseadas na arquitetura Nvidia GB200 NVL72, prometendo a entrega de capacidade computacional aos clientes em um prazo de apenas duas semanas após o recebimento físico dos semicondutores. De forma análoga, a Nebius detalha em seu Relatório Anual seu histórico consistente de pioneirismo na ativação física dos chips de última geração da fabricante norte-americana.
Para sustentar essa expansão acelerada, tanto a CoreWeave quanto a Nebius garantiram contratos que preveem 3,5 GW de capacidade de energia contratada cada uma. Contudo, transformar essa reserva energética em eletricidade ativa é o grande gargalo operacional atual, já que a maior parte dessa capacidade contratada ainda não está conectada à rede elétrica. Os planos de expansão estabelecem que a CoreWeave projeta atingir 1,7 GW de energia ativa até o final de 2026, au passo que a Nebius estabeleceu uma meta de 800 MW a 1 GW de energia conectada no mesmo período de tempo, avançando em direção ao objetivo de longo prazo de implantar mais de 5 GW de capacidade de data center até o ano de 2030 para cada uma das empresas.
A decisão das hiperescalas de terceirizar sua infraestrutura computacional para as neoclouds está fortemente ancorada em uma estratégia de engenharia contábil. Ao alugar a capacidade de processamento por meio de contratos de longo prazo, empresas como Meta e Microsoft conseguem converter o que seria uma saída maciça e imediata de fluxo de caixa destinada a investimentos em bens de capital (capex) em despesas operacionais periódicas (opex). Esse diferimento alivia os balanços patrimoniais das gigantes de tecnologia perante os analistas de mercado, repassando a pressão de endividamento e a necessidade de captação de recursos para as estruturas financeiras das próprias neoclouds.
O impacto prático dessa estratégia se reflete nos números projetados para o ano de 2026. Analistas estimam que a Meta gerará cerca de US$ 136 bilhões em caixa operacional durante o período, mas a empresa já anunciou uma previsão de capex situada entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões, o que poderia empurrar seu fluxo de caixa livre para o terreno negativo. Ao optar por contratos de neocloud que totalizam até US$ 62,2 bilhões com a CoreWeave e a Nebius, estruturados com prazos que se estendem até o período de 2031-2032, a Meta dilui o custo dessas operações para uma média inferior a US$ 10 bilhões anuais em despesas operacionais (opex), evitando o registro desse montante como capex direto em seu balanço.
Um cenário contábil semelhante é observado no planejamento financeiro da Microsoft para o ano de 2026. A empresa projeta gastos de capex de US$ 190 bilhões, enquanto analistas estimam uma geração de caixa operacional de US$ 200 bilhões para o mesmo ciclo. Se essas projeções se confirmarem, os investimentos diretos da criadora do Windows consumiriam 95% de todo o seu caixa operacional gerado. Ao consolidar US$ 60 bilhões em contratos plurianuais com neoclouds, a Microsoft consegue expandir significativamente sua capacidade de processamento para atender à demanda de IA sem sobrecarregar as linhas imediatas de fluxo de caixa em seu demonstrativo financeiro principal.
A parceria estreita com a Nvidia funciona como a engrenagem central que viabiliza o modelo operacional de negócios da CoreWeave e da Nebius. O alinhamento estratégico com a fabricante de semicondutores garante a essas startups o acesso preferencial a lotes de GPUs de última geração, frequentemente antes de seus concorrentes diretos de hiperescala. Um exemplo prático dessa dinâmica ocorreu no início de junho, quando a CoreWeave tornou-se a primeira empresa do mercado a instalar e colocar em funcionamento um sistema equipado com a arquitetura Vera Rubin, demonstrando sua capacidade de integração rápida de novos hardwares.
O suporte da Nvidia às neoclouds também se estendeu ao plano societário, com a fabricante realizando investimentos de capital no valor de US$ 2 bilhões tanto na CoreWeave quanto na Nebius. Esses aportes financeiros diretos não são isolados: registros do formulário 13F da Nvidia referentes ao primeiro trimestre de 2025 revelaram uma participação acionária prévia na CoreWeave avaliada em US$ 896,7 milhões, enquanto o relatório do quarto trimestre de 2025 indicou uma posição minoritária de US$ 33 milhões na Nebius. Esses investimentos de portfólio dão sustentação institucional para que ambas as empresas planejem a construção física de novas estruturas de processamento de dados globalmente.
Além do fornecimento de hardware avançado como as GPUs baseadas nas arquiteturas Hopper e Blackwell Ultra, o relacionamento próximo permite que as neoclouds ofereçam garantias de estabilidade de fornecimento aos seus clientes finais. No Brasil, o acesso a esse tipo de tecnologia de ponta ainda enfrenta barreiras alfandegárias e logísticas complexas, o que torna a contratação de capacidade de processamento remoto em neoclouds internacionais uma alternativa viável para empresas locais que buscam desenvolver modelos de linguagem de grande porte (LLMs) sem a necessidade de importar servidores físicos de alto custo.
A proposta de valor das neoclouds não se limita ao fornecimento de silício bruto, englobando também o desenvolvimento de soluções de software proprietárias destinadas a otimizar a taxa de utilização das GPUs. A CoreWeave desenvolveu o CoreWeave Kubernetes Service (CKS) para gerenciar a distribuição e a coordenação de cargas de trabalho complexas em clusters compostos por milhares de processadores gráficos. Outro componente crucial é o serviço SUNK, que permite a execução simultânea de rotinas de treinamento de modelos e de inferência no mesmo cluster de hardware, minimizando a ociosidade dos componentes e reduzindo o custo operacional geral.
Para acelerar o carregamento de modelos de inteligência artificial na memória dos servidores, a CoreWeave emprega uma ferramenta chamada CoreWeave Tensorizer, que reduz de maneira expressiva o tempo em que as GPUs permanecem sem processar dados. A eficácia dessas tecnologias é medida pela métrica de Utilização de FLOPs do Modelo (MFU), que avalia a eficiência real de processamento de um chip em relação ao seu limite teórico. Atualmente, o mercado de IA convive com um "gargalo de MFU" onde a diferença entre a capacidade computacional nominal e a efetivamente utilizada oscila tipicamente entre 30% e 40%, gerando custos elevados por conta de ciclos de processamento desperdiçados.
A startup de otimização de IA Trainy AI explica a complexidade dessa métrica ao pontuar que a medição tradicional de utilização de uma GPU monitora apenas se um núcleo computacional (kernel) está em execução em um determinado momento, sem fornecer indicação sobre se o núcleo está utilizando todos os recursos físicos de processamento disponíveis ou distribuindo a carga de trabalho de forma paralela em sua capacidade máxima. Em seu processo de abertura de capital, a CoreWeave divulgou que suas taxas históricas de MFU situavam-se entre 35% e 45% (um índice cerca de 20% superior ao de rivais que operavam na faixa dos 30%), e revelou em publicação técnica de março de 2025 ter alcançado um patamar de MFU superior a 50% em ambientes equipados com processadores Nvidia Hopper.
O arranjo financeiro estruturado em torno das neoclouds levanta questionamentos no mercado devido às suas características de financiamento circular, onde a Nvidia atua simultaneamente como investidora de capital, fornecedora exclusiva de insumos tecnológicos essenciais e garantidora de demanda residual. O fluxo financeiro se fecha quando a Nvidia injeta capital nas empresas parceiras e estas utilizam esses mesmos recursos financeiros para adquirir volumes massivos de GPUs fabricadas pela própria investidora, ajudando a inflar as receitas da fabricante de chips que registrou um fluxo de caixa livre acumulado nos últimos 12 meses de US$ 119 bilhões (o segundo maior do mundo corporativo, superado apenas pela Apple).
O mecanismo de proteção financeira mais controverso desse ecossistema está detalhado nos termos do acordo firmado entre a fabricante de semicondutores e a CoreWeave. Sob este contrato, que possui um valor de avaliação inicial estipulado em US$ 6,3 bilhões, a Nvidia assumiu a obrigação contratual de adquirir toda a capacidade excedente de processamento dos data centers da CoreWeave caso a startup não encontre clientes finais no mercado privado. Esta cláusula de garantia de compra de capacidade não utilizada estende-se até o dia 13 de abril de 2032, mitigando significativamente o risco operacional de ociosidade de infraestrutura para a neocloud, mas amarrando de forma definitiva a saúde financeira de ambas as companhias.
Diante desse cenário de alta dependência de capital de terceiros, o mercado acompanha de perto a sustentabilidade do modelo de negócios das neoclouds em um contexto macroeconômico de juros elevados e forte endividamento. O sucesso operacional de CoreWeave e Nebius em converter seus backlogs bilionários em receitas reais recorrentes servirá como termômetro para a durabilidade do atual ciclo de investimentos em inteligência artificial. A robustez desse ecossistema será testada à medida que as metas de ativação de gigawatts de energia forem confrontadas com a realidade física de construção de novos data centers e com a capacidade de o mercado absorver tamanha oferta computacional.
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