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Ditto levanta US$ 9,2 milhões e substitui 'swiping' por IA para marcar encontros

Fundada por ex-alunos da UC Berkeley, a Ditto usa IA para agendar encontros presenciais às quartas-feiras e acumula 150 mil inscritos universitários.

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Smartphone exibindo notificação de aplicativo de encontros por IA sobre uma mesa de trabalho moderna.
Smartphone exibindo notificação de aplicativo de encontros por IA sobre uma mesa de trabalho moderna.

Os ex-alunos da UC Berkeley, Allen Wang e Eric Liu, abandonaram os estudos universitários para fundar a Ditto, uma plataforma de relacionamentos voltada para a Geração Z que elimina completamente a mecânica tradicional de deslizar telas (swiping). A proposta da startup, sediada em São Francisco, substitui o modelo consolidado por aplicativos como Tinder e Hinge ao utilizar inteligência artificial para intermediar a formação de casais e agendar encontros presenciais automáticos todas as quartas-feiras, pontualmente às 19h.

Smartphone exibindo notificação de aplicativo de encontros por IA sobre uma mesa de trabalho moderna.
Foto: TechCrunch AI

A criação do serviço surgiu da percepção direta dos fundadores sobre o esgotamento dos jovens de vinte e poucos anos em relação à dinâmica das plataformas convencionais de namoro. Em entrevista ao veículo TechCrunch, o cofundador Allen Wang explicou as motivações comportamentais que impulsionaram o desenvolvimento da nova ferramenta. “Como membros da própria Geração Z, testemunhamos em primeira mão a mudança comportamental na forma como as pessoas se conectam”, afirmou Wang. “Vemos que as pessoas estão extremamente cansadas de todo o deslizar infinito e das conversas fiadas sem fim, e estão realmente procurando por algo mais genuíno na vida real.”

Diferente de grande parte dos serviços do mercado digital, a Ditto não exige o download de um aplicativo tradicional nas lojas virtuais. Para ingressar na rede, os estudantes universitários precisam apenas enviar uma mensagem de texto via iMessage para um número específico, acompanhada de um código de acesso. A partir desse primeiro contato, o chatbot de inteligência artificial se apresenta sob a seguinte premissa: “uma iniciativa de relacionamentos feita por estudantes universitários que entendem do assunto... sem deslizar telas, sem DMs constrangedoras, apenas encontros reais todas as quartas-feiras às 19h.”

A mecânica do algoritmo

O processo de onboarding da Ditto ocorre inteiramente por meio de mensagens de texto trocadas com o robô de IA. A conversa inicial solicita dados biográficos básicos do usuário, incluindo nome completo, gênero e data de nascimento. Na sequência, o sistema avança para questionamentos mais específicos, projetados para mapear traços de personalidade, interesses pessoais e preferências detalhadas de relacionamento. Para refinar o padrão de atração visual, a plataforma permite que os cadastrados enviem fotografias de suas paixões célebres (celebrity crushes), oferecendo uma referência estética direta ao modelo de recomendação.

A arquitetura do algoritmo desenvolvido pela Ditto não busca cruzar perfis com base na simples sobreposição de hobbies idênticos, mas sim no que esses hábitos revelam sobre a estrutura psicológica e o estilo de vida de cada indivíduo. A tese central da equipe de Allen Wang é que a afinidade pessoal e a química entre duas pessoas podem ser previstas matematicamente quando analisadas sob os sinais comportamentais corretos capturados pela inteligência artificial.

“Se há um rapaz que gosta muito de escalada em rocha, paraquedismo e esportes ao ar livre, e uma garota que gosta de hip hop, streetwear e skate, embora esses hobbies não pareçam semelhantes na superfície, posso te dizer que, mais fundo, ambos são muito aventureiros; talvez sejam muito individualistas. Então essa é realmente a razão central pela qual as pessoas encontrarão química umas com as quais, e a nossa premissa é que a química é realmente previsível com os sinais corretos.”

Allen Wang, cofundador da Ditto

Essa abordagem analítica difere substancialmente dos sistemas tradicionais de recomendação que agrupam usuários por categorias superficiais. Ao mapear motivações subjacentes em vez de termos de pesquisa idênticos, o algoritmo tenta identificar conexões emocionais mais profundas, utilizando os dados fornecidos no iMessage para prever o sucesso de um encontro presencial antes mesmo que os participantes troquem a primeira palavra.

Transição para o presencial

O ciclo operacional da Ditto culmina semanalmente no mesmo horário. Toda quarta-feira, às 19h, a inteligência artificial envia uma mensagem direta aos usuários revelando a combinação selecionada para aquela semana. A notificação entrega o nome do par reservado, o horário exato e o local presencial onde o encontro deverá acontecer, reduzindo drasticamente as etapas intermediárias de negociação e conversa prévia que costumam desacelerar o processo em outras ferramentas.

Após o término do encontro, os usuários retornam à interface do iMessage para fornecer um feedback estruturado sobre a experiência vivida no local indicado. Essas informações de retorno são reprocessadas pelo sistema para aprimorar o perfil de preferências do usuário, alimentando o banco de dados para a geração de um match mais preciso no ciclo seguinte. Segundo Wang, o objetivo principal é remover o atrito operacional para que os estudantes foquem apenas na interação humana presencial.

“Vem com a pessoa, vem com um horário, vem com um local, e os usuários simplesmente precisam aparecer, ter o encontro e voltar. Nós coletamos mais feedback sobre o encontro e depois melhoramos nossa compreensão sobre o usuário para enviá-lo a um encontro posterior ainda melhor. Agora o objetivo das pessoas é realmente apenas sair e se conhecerem, então isso está removendo muito atrito para nossos usuários, fazendo o trabalho pesado por eles.”

Allen Wang, em declaração ao TechCrunch

Atualmente, a Ditto contabiliza 150.000 inscritos em sua base de usuários. Do total de combinações geradas pela inteligência artificial da plataforma, aproximadamente 20% progridem para a realização efetiva de um encontro no mundo físico. Essa taxa de conversão presencial de 20% é considerada expressiva quando comparada às métricas de aplicativos tradicionais baseados em telas de rolagem como o Tinder, nos quais a grande maioria das combinações virtuais não resulta em compromissos reais fora do ambiente digital.

Apresentação e segurança acadêmica

Para apresentar os pares antes do encontro presencial, a Ditto gera um gráfico no formato de colagem (collage-like graphic) que explica visualmente os motivos pelos quais o algoritmo considera que aquela combinação tem potencial de dar certo. Esse estilo estético tornou-se uma tendência marcante entre os serviços digitais voltados para a Geração Z, sendo adotado também por outras plataformas de conexão fundadas por jovens empreendedores, como o aplicativo Sonder.

Em serviços de relacionamento que eliminam o período habitual de conversa por mensagens e aceleram o tempo entre o match e o encontro presencial, a segurança dos usuários torna-se um ponto crítico. Para mitigar riscos de falsificação de identidade e garantir um ambiente controlado, a Ditto restringe sua operação atual a poucas dezenas de universidades nos Estados Unidos, implementando um processo de verificação baseado na exigência de um e-mail institucional com domínio .edu.

Essa barreira de entrada acadêmica assegura que todos os participantes sejam estudantes comprovados da mesma instituição de ensino, oferecendo uma camada prévia de checagem. Contudo, o desafio estratégico da empresa liderada por Allen Wang e Eric Liu reside em como expandir o serviço para um público mais amplo e para além do ecossistema universitário, mantendo os padrões de segurança e controle de identidade à medida que a escala de usuários aumenta.

Financiamento e investidores

Para financiar sua expansão e aperfeiçoar sua infraestrutura tecnológica, a Ditto garantiu US$ 9,2 milhões em uma rodada de investimento do tipo seed. O aporte contou com a participação de fundos de capital de risco de alto perfil do setor de tecnologia, incluindo Gradient (fundo do Google focado em IA), Peak XV (antiga Sequoia Capital India e Southeast Asia) e Scribble.

A atração de capital ocorreu de forma majoritariamente receptiva (inbound), impulsionada pelo engajamento espontâneo que a startup alcançou em plataformas profissionais e redes sociais. Segundo dados revelados pelos fundadores, cerca de 99% dos investidores procuraram a empresa diretamente após acompanharem a repercussão pública do projeto em redes como o LinkedIn e o X (antigo Twitter).

“99% dos investidores nos procuraram por meio de contato receptivo, porque ficamos bem grandes no LinkedIn e no Twitter por um tempo. Até o cofundador do Duolingo, Severin Hacker, entrou em contato comigo dizendo: 'Hey, adorei a sua missão, gosto muito do que você faz, vamos fazer uma ligação'.”

Allen Wang, detalhando a captação de recursos da Ditto

O envolvimento de executivos do setor, como Severin Hacker do Duolingo, reforça o interesse do mercado de tecnologia em soluções que utilizam modelos generativos e conversacionais de inteligência artificial para resolver problemas de retenção e fadiga de uso em aplicativos de consumo voltados para o público jovem.

Marketing e estrutura operacional

Instalada na cidade de São Francisco, a equipe da Ditto é composta por 12 funcionários em tempo integral. Para capturar a atenção do público universitário sem recorrer a abordagens publicitárias tradicionais, a empresa investe em campanhas de marketing de guerrilha e vídeos com acrobacias envolvendo robôs, projetados para gerar engajamento viral nas redes sociais.

Como parte dessa estratégia irreverente de divulgação, a startup abriu uma contratação oficial para o cargo de “chief yacht officer” (diretor de iate). A vaga, listada legitimamente pela empresa, tem como atribuição principal a organização de festas promocionais e eventos em embarcações direcionados aos estudantes cadastrados na plataforma.

O posicionamento da marca reflete a visão dos fundadores sobre como a Geração Z consome produtos digitais e reage a esforços publicitários. De acordo com a liderança da startup, ações espetaculares funcionam apenas como mecanismo de atração inicial para o topo do funil de conversão, enquanto a permanência dos usuários depende exclusivamente da eficiência prática da ferramenta em proporcionar experiências presenciais bem-sucedidas.

“Nossos usuários são estudantes universitários e eles conseguem cheirar o marketing corporativo a um quilômetro de distância. Mas as acrobacias são o topo do funil, não o produto... Momentos virais fazem os estudantes universitários olharem; um bom primeiro encontro é o que os faz ficar.”

Allen Wang, cofundador da Ditto, em entrevista ao TechCrunch

Com o aporte de US$ 9,2 milhões assegurado por investidores como Gradient e Peak XV, a Ditto foca o desenvolvimento do seu algoritmo conversacional via iMessage para refinar o cruzamento de dados comportamentais. O avanço da startup em dezenas de campi universitários sinaliza uma reconfiguração na dinâmica dos aplicativos de relacionamento, testando se a automação total dos agendamentos presenciais por inteligência artificial é capaz de substituir em definitivo o modelo histórico de deslizar telas criado na década passada.

#Ditto#Inteligencia Artificial#Geração Z#Aplicativos de Relacionamento#Startups
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