AMD lança sistema Helios contra Nvidia e prevê mercado de IA em US$ 1,4 tri
A AMD revelou o sistema de rack Helios para IA, anunciou o chip Venice-X para 2027 e previu um mercado de US$ 1,4 trilhão até 2030 em evento em San Francisco.
Meta lança anúncio sobre IA com música de David Bowie sobre extinção humana. Entenda o descompasso das Big Techs e dados da Pew Research.
A Meta lançou uma nova campanha publicitária focada em transmitir uma visão otimista sobre a inteligência artificial, mas a iniciativa chamou a atenção por uma contradição inusitada: a trilha sonora escolhida para a peça é a canção "Five Years", lançada por David Bowie, cuja letra aborda o pânico da humanidade ao descobrir que o planeta enfrentará um evento de extinção em massa dentro de cinco anos. A campanha surge no momento em que a gigante de tecnologia investe centenas de bilhões de dólares no desenvolvimento de modelos avançados de IA, buscando redefinir a percepção pública em relação às suas ferramentas e plataformas virtuais.

O anúncio da Meta começa com um enquadramento em preto e branco focado no olho de uma pessoa, simulando a perspectiva de alguém que lê diversas manchetes alarmistas sobre como a inteligência artificial pode eliminar postos de trabalho, isolar indivíduos e desencadear uma crise global. Nesse momento inicial, a locução do comercial declara: "Some people will have you believe AI is going to make us feel less connected. That it’s going to leave us behind. We couldn’t disagree more" (Algumas pessoas farão você acreditar que a IA nos deixará menos conectados. Que ela vai nos deixar para trás. Nós não poderíamos discordar mais).
Em seguida, a produção transita abruptamente para cenas coloridas, exibindo uma sequência de pessoas abrindo os olhos e sorrindo. O vídeo apresenta imagens gravadas no formato de postagens do Instagram, mostrando um casal dançando em um terraço e apontando para um arco-íris, um grupo de adolescentes nadando em um lago, uma criança correndo por um campo e amigos se abraçando após um período de afastamento. A narração prossegue afirmando: "Call us optimists. Call us dreamers. Call us whatever the hell you want. But we’re betting on people, and we like those odds. The future is for everyone" (Nos chame de otimistas. Nos chame de sonhadores. Nos chame do diabos que quiser. Mas estamos apostando nas pessoas, e gostamos dessas probabilidades. O futuro é para todos).
O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, publicou o vídeo em suas redes sociais acompanhado de uma declaração corporativa sobre os objetivos da empresa com a tecnologia. Em sua mensagem, o executivo afirmou:
"Meta has always believed in giving people the power to share, connect, and shape your world in the ways you want. As we enter this next wave with AI, we continue to believe the future is for everyone. We’re focused on giving every person the tools to reach your full potential and making sure the benefits of technology are distributed to everyone."(A Meta sempre acreditou em dar às pessoas o poder de compartilhar, se conectar e moldar seu mundo das maneiras que desejarem. Ao entrarmos nesta próxima onda com a IA, continuamos a acreditar que o futuro é para todos. Estamos focados em dar a cada pessoa as ferramentas para alcançar seu potencial máximo e garantir que os benefícios da tecnologia sejam distribuídos a todos).
Apesar da mensagem institucional sobre conexão humana, a escolha da faixa "Five Years" de David Bowie introduziu um contraste direto com o discurso visual da Meta. A música abre o icônico álbum do artista e descreve o desespero coletivo que toma conta da sociedade após o anúncio de que a Terra possui apenas meia década de existência antes de sua destruição total. A edição do comercial utilizou um trecho específico da canção em que a palavra "people" (pessoas) é repetida sucessivamente, o que pode passar uma impressão inspiradora para ouvintes desatentos, mas mantém seu significado original atrelado ao colapso do planeta.
Para testar como a mensagem da música é percebida por perfis distantes da análise literária, a jornalista Amanda Silberling, da TechCrunch, realizou um experimento com seu próprio irmão. Ele atua como analista de blockchain, é usuário frequente da ferramenta Claude Code e declarou não ler obras literárias por lazer. Ao ouvir a faixa sem contexto prévio, o analista identificou imediatamente o tom catastrófico da obra, afirmando ter pensado inicialmente em "mudanças climáticas, depois apocalipse zumbi e, em seguida, um asteroide atingindo a Terra".
A análise da letra de David Bowie revela trechos explicitamente sombrios que antecedem o segmento utilizado no anúncio da Meta. Os versos originais narram o momento exato em que a população recebe a notícia do fim do mundo pelas transmissões de rádio e televisão:
"News had just come over / We had five years left to cry in / News guy wept and told us / Earth was really dying / Cried so much his face was wet / Then I knew he was not lying"(A notícia tinha acabado de chegar / Tínhamos cinco anos restantes para chorar / O âncora do jornal chorou e nos disse / A Terra estava realmente morrendo / Chorou tanto que seu rosto estava molhado / Então eu soube que ele não estava mentindo).
A justaposição entre uma mensagem corporativa que tenta convencer o público de que a IA tornará o mundo um lugar melhor e uma trilha sonora que narra o apocalipse evidencia uma falha na curadoria de conteúdo da Meta. A gafe passou sem filtragem por toda a equipe de marketing e pelo próprio CEO Mark Zuckerberg, demonstrando como elementos da cultura pop e da literatura frequentemente são apropriados por empresas de tecnologia de maneira superficial, ignorando o contexto original das obras.
O uso desacertado de "Five Years" reflete um padrão recorrente no setor de tecnologia, onde executivos e equipes de desenvolvimento falham em interpretar alertas culturais e obras de ficção científica. Esse descompasso entre a intenção corporativa e o significado real das referências utilizadas expõe a falta de familiaridade de grandes líderes de tecnologia com análises humanísticas, resultando em peças publicitárias que geram ruído e ironia junto ao público especializado.
A desconexão demonstrada pela Meta com a música de David Bowie não é um caso isolado na indústria de tecnologia. Historicamente, diversas lideranças do setor têm utilizado obras distópicas como inspiração direta para seus produtos ou estratégias de marca. Um exemplo marcante ocorreu quando a divisão Oculus, de propriedade da Meta, distribuiu aos novos funcionários exemplares do romance de ficção científica "Ready Player One". A obra descreve uma sociedade distópica dominada por uma corporação gananciosa de realidade virtual que explora os usuários e exerce poder excessivo sobre a vida cotidiana.
De forma semelhante, o CEO da OpenAI, Sam Altman, citou publicamente o filme "Her" (Ela) como uma de suas grandes inspirações para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. No entanto, o enredo do filme dirigido por Spike Jonze funciona justamente como um aviso sobre os perigos psicológicos e emocionais do isolamento humano e da dependência afetiva de sistemas de IA projetados para simular empatia.
Outro exemplo dessa tendência é a empresa de vigilância e inteligência artificial Palantir, fundada por investidores do Vale do Silício. A companhia, que constrói sistemas de monitoramento por IA para governos e agências de segurança, retirou seu nome do artefato mágico Palantír, presente na franquia "O Senhor dos Anéis". Na literatura de J.R.R. Tolkien, a pedra de visão é utilizada pelo vilão Lorde das Trevas (Sauron) para vigiar, manipular e espionar seus inimigos.
Até mesmo o bilionário Elon Musk protagonizou episódios semelhantes ao criticar publicamente a precisão histórica de adaptações cinematográficas como a versão de Christopher Nolan para a obra clássica "A Odisséia". O poema épico atribuído a Homero é repleto de elementos mitológicos deliberadamente irrealistas, incluindo monstros marinhos, feitiçaria e intervenções divinas, tornando o questionamento sobre "precisão" uma demonstração de incompreensão sobre o gênero literário.
Essa incapacidade recorrente das empresas de tecnologia em interpretar avisos de ficção científica foi sintetizada em um tuíte viral publicado pelo autor Alex Blechman em 8 de novembro de 2021. No texto, o escritor ironiza a postura da indústria:
"Sci-Fi Author: In my book I invented the Torment Nexus as a cautionary tale. Tech Company: At long last, we have created the Torment Nexus from classic sci-fi novel Don't Create The Torment Nexus"(Autor de Ficção Científica: Em meu livro eu inventei o Torment Nexus como um conto de advertência. Empresa de Tecnologia: Finalmente criamos o Torment Nexus do clássico romance de ficção científica Não Crie O Torment Nexus).
A Meta não está sozinha nas falhas de comunicação publicitária recente no setor de inteligência artificial. Em vez de focar na demonstração prática de novos modelos ou no avanço em direção à inteligência artificial geral (AGI), grandes concorrentes têm travado uma disputa sobre quem produz a campanha comercial mais perturbadora. Poucas semanas antes do anúncio da Meta, a desenvolvedora Anthropic lançou um vídeo promocional que causou estranheza no mercado.
O repórter Lucas Ropek, da TechCrunch, descreveu o comercial da Anthropic destacando seu tom sombrio e perturbador. O vídeo começa com a imagem de uma casa em chamas e, em seguida, exibe uma série de fotografias estáticas. Entre as imagens apresentadas estão uma multidão de pessoas sendo monitorada por sistemas de reconhecimento facial, um indivíduo em situação de rua dormindo na calçada, fileiras de lápides em um cemitério e trabalhadores explorados em uma mina extraindo matérias-primas utilizadas na fabricação de smartphones.
Enquanto essas imagens de crise social e ambiental são exibidas, a narração do comercial da Anthropic apresenta vozes de diferentes pessoas questionando a segurança da tecnologia com frases como "Can AI be trusted?" (A IA pode ser confiada?) e "Who’s gonna hit the brakes if we need to?" (Quem vai pisar nos freios se nós precisarmos?). A intenção da empresa era demonstrar que compreende os riscos existenciais e sociais da IA, tentando se posicionar como a alternativa responsável do setor, mas o resultado visual transmitiu um clima de desolação semelhante ao tema de extinção presente na canção de David Bowie.
A repercussão negativa da propaganda da Anthropic provocou reações imediatas de concorrentes do setor. O CEO da OpenAI, Sam Altman, ironizou publicamente o vídeo da rival ao declarar: "I thought this was satire, kept looking for the handle to be spelled c1audeai or something" (Achei que fosse uma sátira, fiquei procurando para ver se o perfil estava grafado como c1audeai ou algo assim), em referência ao modelo de linguagem Claude desenvolvido pela Anthropic.
Enquanto empresas como Meta, Anthropic e OpenAI disputam a narrativa pública e investem fortunas em campanhas de marketing, a percepção dos usuários reais permanece predominantemente cética. Dados de uma pesquisa recente realizada pelo instituto Pew Research Center apontam que apenas 16% dos adultos nos Estados Unidos acreditam que o impacto da inteligência artificial na sociedade nos próximos 20 anos será positivo. Por outro lado, 40% dos entrevistados afirmaram acreditar que a tecnologia terá um impacto predominantemente negativo sobre a vida em sociedade.
Esse abismo entre o otimismo corporativo promovido por executivos como Mark Zuckerberg e a desconfiança da população reflete a falta de eficácia das estratégias publicitárias atuais. O envio de mensagens contraditórias — seja por meio do uso de músicas sobre o fim do mundo como "Five Years" de David Bowie ou pela exibição de casas em chamas e vigilância em massa — reforça o distanciamento entre os departamentos de marketing do Vale do Silício e o público geral.
Para o ecossistema de tecnologia no Brasil, onde a adoção de ferramentas de IA em empresas e startups cresce em ritmo acelerado, o cenário serve como um alerta sobre a importância do alinhamento cultural nas estratégias de comunicação. Campanhas desenvolvidas por gigantes globais que ignoram o contexto de suas referências artísticas e os anseios reais da população correm o risco de aumentar a rejeição à tecnologia, em vez de fomentar a confiança necessária para sua integração no dia a dia dos usuários.
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