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Meta financia criadores extremistas com programa de monetização

Investigação da ABC NEWS Verify revela que a Meta paga repasses monetários no Facebook a perfis supremacistas e antivacina por meio do engajamento.

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Servidores em data center iluminados por luzes azuis com fluxos digitais de dados.
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A gigante de tecnologia Meta distribuiu quase US$ 3 bilhões (o equivalente a 4,27 bilhões de dólares australianos) para cerca de 16,2 milhões de contas monetizadas ao longo de 2025. No entanto, uma investigação conduzida pelo núcleo ABC NEWS Verify revelou que parte desses recursos financeiros foi repassada diretamente para figuras extremistas, grupos supremacistas brancos e promotores de desinformação na Austrália.

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Foto: Hacker News

Entre os beneficiários do programa Content Monetization está Hugo Lennon, um agitador de extrema-direita com conexões com o movimento neonazista que foi retirado pela Victoria Police de um hotel em Melbourne após gritar ofensas racistas contra o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, durante sua visita oficial ao país.

Registros obtidos pela investigação apontam que Hugo Lennon recebe pagamentos da Meta desde setembro de 2025. Em suas redes sociais, o extremista veicula vídeos do incidente verbal contra Narendra Modi e publica conteúdos fundamentados em teorias supremacistas, como a teoria da substituição populacional e a eugenia da "remigração".

Perfis extremistas beneficiados pelo programa

O site de notícias extremista The Noticer, conhecido por promover abertamente ideologias supremacistas e neonazistas, foi incluído no programa de monetização da Meta em novembro de 2025. A página registrou apenas uma breve interrupção em seus ganhos entre 11 de janeiro e 15 de fevereiro, por razões não divulgadas pela empresa.

A contradição da moderação no ecossistema das redes sociais fica evidente ao constatar que o The Noticer teve sua conta suspensa na rede social X por violar a Hateful Profile Policy da plataforma de Elon Musk, enquanto mantinha o fluxo de remuneração ativo na rede de Mark Zuckerberg.

Outro perfil beneficiado pelos repasses comerciais da Meta é a página associada ao grupo anti-imigração March for Australia, organização que possui estreitas ligações com movimentos neonazistas locais e concluiu seu registro no programa Content Monetization em dezembro de 2025.

A lista de criadores remunerados traz também Monica Smit, fundadora da organização antivacina e antilockdown Reignite Democracy Australia (RDA). Registrada formalmente no novo programa em setembro de 2025, a ativista acumula receitas publicitárias na plataforma desde pelo menos 2017.

Em sua página oficial no Facebook, Monica Smit compartilha conteúdos com desinformação médica sobre vacinas e direciona os seguidores para seu site pessoal, onde comercializa pulseiras de "proteção contra radiação", combinando repasses de anúncios com a venda de produtos pseudocientíficos.

Procurados formalmente pela equipe de reportagem do ABC NEWS Verify, os citados Hugo Lennon, Monica Smit, os administradores do The Noticer e os representantes do March for Australia optaram por não responder aos pedidos de comentário.

A mecânica do programa por convite

O sistema de remuneração da Meta investigado pelo ABC NEWS Verify funciona por meio de um programa restrito, acessível apenas por convite da própria empresa, que permite aos criadores selecionados gerar receita com a performance de reels, fotos, stories e postagens em texto.

As informações detalhadas sobre a inclusão dessas contas foram reunidas a partir dos relatórios públicos de transparência disponibilizados pela Meta desde 2019, organizados e catalogados em um banco de dados pesquisável pela organização sem fins lucrativos What To Fix.

"Se consideramos que a Meta está em uma relação comercial direta com seus editores, na medida em que paga royalties e possui um contrato de monetização com eles, pode-se argumentar que ela é responsável pelo conteúdo produzido por seus parceiros de negócios de alguma forma", afirma Victoire Rio, diretora-executiva da What To Fix.

A diretora-executiva Victoire Rio ressaltou ainda que o achado não representa um caso isolado dentro das plataformas da empresa, lembrando que a What To Fix já identificou em levantamentos anteriores contas vinculadas a entidades sob sanções internacionais operando ativamente dentro desses programas monetizados.

De acordo com a análise de Victoire Rio, a questão central do debate não é a ausência de diretrizes escritas, mas a falha estrutural na fiscalização promovida pela Meta, que permite a aprovação e manutenção de perfis que violam abertamente suas políticas comerciais.

Violação das diretrizes e engajamento

As páginas auditadas pelo ABC NEWS Verify expõem uma desconexão com os termos oficiais de monetização da Meta, que determinam que "questões sociais debatidas", como raça, podem sofrer limitação de receita, e que "informações médicas enganosas" são inelegíveis para monetização.

Para a pesquisadora independente de extremismo de direita Kaz Ross, a manutenção desses pagamentos a criadores controversos reflete uma escolha do modelo financeiro da Meta, desenhado para premiar o engajamento gerado por conteúdos do tipo rage bait.

"O modelo financeiro deles é recompensar criadores de conteúdo que obtêm engajamento, e como sabemos, a melhor maneira de conseguir engajamento é produzir rage bait, material extremista e inflamatório: qualquer coisa que faça as pessoas se irritarem e discutirem é a melhor forma de gerar engajamento", explica a dra. Kaz Ross.

"É moralmente falido fazer isso — saber que essas pessoas estão produzindo conteúdo que viola seus próprios regulamentos e, ainda assim, não apenas permitir, mas encorajá-las pagando por isso", complementa a pesquisadora Kaz Ross.

O posicionamento oficial da Meta

Questionada formalmente sobre os repasses financeiros a Hugo Lennon, Monica Smit e aos grupos The Noticer e March for Australia, a Meta recusou-se a comentar os casos individuais e enviou apenas um posicionamento institucional genérico.

Na declaração prestada ao ABC NEWS Verify, a Meta sustentou que possui diretrizes claras e que aplica penalidades — como a suspensão temporária ou definitiva do direito de monetizar e a remoção da plataforma — aos perfis que violam repetidamente os **Padrões da Comunidade**.

"É importante distinguir entre o discurso que é ofensivo e o conteúdo que pode potencialmente levar à violência offline. Esse discurso pode ser ofensivo para muitos, mas não é papel da Meta policiar a ofensividade", afirmou a Meta em nota oficial.

Embora o valor exato auferido individualmente por cada uma das contas não seja revelado ao público pela Meta, a divulgação continuada de dados sobre seus repasses a parceiros desde 2019 é vista por analistas como um avanço pontual em termos de transparência.

Segundo a especialista Victoire Rio, da What To Fix, a Meta adota um nível de abertura de dados superior ao de concorrentes como YouTube, TikTok e X, embora ressalte que o padrão atual da indústria continue em um nível considerado excessivamente baixo.

Impacto no mercado e contexto digital

A investigação publicada pelo ABC NEWS Verify ilumina os dilemas enfrentados pela economia de criadores em escala global, na qual algoritmos projetados para maximizar métricas em vídeos do **Facebook** acabam criando incentivos financeiros para a polarização radical.

No cenário do mercado digital brasileiro, onde o ecossistema de anúncios da Meta e a monetização de **reels** movimentam parcelas expressivas da receita de influenciadores e veículos digitais, as descobertas da What To Fix reacendem o debate sobre governança e integridade algorítmica.

As análises da dra. Kaz Ross indicam que a dependência do engajamento por indignação impõe desafios severos às equipes de conformidade, uma vez que a arquitetura das plataformas tende a priorizar postagens que geram controvérsia acelerada.

A interpretação jurídica proposta por Victoire Rio sobre a existência de uma relação comercial direta entre a Meta e seus editores parceiros adiciona relevância aos debates regulatórios no Brasil e no exterior sobre a responsabilidade civil das *big techs* em relação aos conteúdos que financiam.

Com a distribuição de cerca de US$ 3 bilhões para mais de 16,2 milhões de contas em um único ano, a pressão por auditorias independentes sobre os programas de monetização da Meta consolida-se como uma pauta central para o futuro das mídias digitais.

#Meta#Facebook#monetizacao#moderacao-de-conteudo#redes-sociais
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