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Current AI desafia o monopólio das big techs com alternativa aberta de IA

A organização Current AI assegura US$ 400 milhões para descentralizar a tecnologia, financiando projetos na Amazônia brasileira, Quênia, Líbano e Índia.

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Dispositivo eletrônico portátil de código aberto repousando sobre mesa de madeira próximo a folhas nativas
Dispositivo eletrônico portátil de código aberto repousando sobre mesa de madeira próximo a folhas nativas

Em julho de 2026, a organização global sem fins lucrativos Current AI, sob o comando da recém-chegada diretora executiva Ayah Bdeir, consolidou seu posicionamento estratégico para confrontar a hegemonia das corporações privadas na corrida do desenvolvimento tecnológico. A instituição atua para pavimentar a criação de uma infraestrutura pública de inteligência artificial de acesso universal e gratuito. Com um capital comprometido de US$ 400 milhões, o projeto pretende emular a filosofia democrática que estruturou a World Wide Web original em seus primórdios, oferecendo uma alternativa viável e descentralizada aos modelos fechados de grandes corporações e protegendo a integridade cultural de comunidades no Sul Global.

Dispositivo eletrônico portátil de código aberto repousando sobre mesa de madeira próximo a folhas nativas
Foto: TechCrunch AI

A fundação da entidade ocorreu em fevereiro de 2025 sob a iniciativa de Martin Tisne. Desde então, a velocidade de execução tem sido um dos pilares da estratégia da instituição. O marco mais recente dessa movimentação rápida ocorreu na última semana, durante a conferência AI for Good Summit, realizada em Genebra, onde a organização lançou publicamente o Alpha Chat, um assistente conversacional de código aberto desenvolvido em tempo recorde. A rapidez com que o projeto evoluiu reflete a urgência em propor ferramentas utilizáveis antes que os sistemas proprietários monopolizem de forma definitiva a governança da informação digital global.

Financiamento e governança global

O desenho operacional da Current AI baseia-se em um modelo estruturado de parceria público-privada, que reúne sob o mesmo teto governos nacionais, fundações filantrópicas de peso e gigantes do ecossistema de tecnologia. O pontapé inicial foi dado pelo governo da França, que aportou uma semente de US$ 100 milhões na iniciativa. Essa quantia foi expandida pelo apoio financeiro e estratégico de entidades renomadas como a Fundação Ford, a Fundação MacArthur, além de braços corporativos e de pesquisa como a DeepMind e a Salesforce. Essa coalizão garantiu o montante total de financiamento focado em interesse público e não em lucros comerciais.

“Eles não são investidores; são financiadores”, esclarece a CEO Ayah Bdeir, estabelecendo uma distinção clara entre o capital de risco tradicional do Vale do Silício e o aporte de suporte social promovido pela organização.

A transição de liderança da organização no início deste ano trouxe para o comando uma executiva com histórico de inovação e democratização técnica. Ayah Bdeir assumiu o cargo de CEO em janeiro, logo após coordenar as diretrizes estratégicas de inteligência artificial dentro da Mozilla. Bdeir possui um portfólio de empreendedorismo de impacto focado em educação científica e tecnológica, tendo fundado anteriormente a littleBits, uma renomada empresa de kits de aprendizado STEM que alcançou milhões de crianças em todo o mundo antes de ser adquirida pela Sphero no ano de 2019. Essa bagagem orientada para o desenvolvimento de ferramentas acessíveis dita o tom das ações atuais do grupo.

A busca por alternativa pública

O cerne da tese defendida pela liderança do projeto é a de que a concentração de poder nas mãos de poucas companhias privadas representa um risco severo para a soberania digital e o desenvolvimento humano global. Atualmente, os sistemas de ponta que moldam o mercado de IA pertencem e são geridos por empresas comerciais de capital fechado ou aberto, como OpenAI, Google e Anthropic. A proposta de criar uma alternativa pública de código aberto surge como um contrapeso a essa centralização econômica, visando disponibilizar recursos que possam ser livremente auditados, adaptados e mantidos pela comunidade internacional sem dependência tecnológica.

“Se a IA é realmente uma tecnologia transformadora, se vai mudar todos os aspectos da vida de todos, precisa haver uma alternativa pública. Como a World Wide Web, disponível para qualquer pessoa, gratuitamente”, argumenta Ayah Bdeir.

Sob a ótica de preservação linguística, o atual panorama de treinamento de grandes modelos de linguagem apresenta desafios críticos. Estima-se que cerca de metade das línguas faladas em todo o planeta corre risco de extinção nas próximas décadas. Uma vez que o idioma inglês funciona como o principal motor de desenvolvimento para os maiores modelos de linguagem da atualidade, a esmagadora maioria das culturas regionais e comunidades de menor expressão geopolítica acaba sendo sistematicamente excluída da infraestrutura moderna de informação.

O combate ao colonialismo de dados

A abordagem comercial das grandes companhias de tecnologia ao tentar expandir seu alcance geográfico é alvo de contestações éticas por parte dos desenvolvedores da rede aberta. Ao expandir modelos multilingues para novos mercados, essas empresas costumam coletar dados sem consentimento explícito e de forma descontextualizada. Um exemplo desse processo ocorre com línguas indígenas, em que traduções históricas da Bíblia produzidas por missionários acabam sendo capturadas como dados primários de treinamento de forma unilateral, antes mesmo que os próprios povos afetados tenham a oportunidade de estabelecer suas próprias regras de governança e proteção do conhecimento tradicional.

“A linguagem é a forma como o conhecimento, a tradição, a memória e a identidade são transmitidos de uma geração para a outra. Portanto, quando uma tecnologia não consegue falar sua língua, ela também não pode reter sua cultura”, destaca a executiva.

Para mitigar esses problemas de soberania informativa, a organização adota protocolos severos para determinar quem possui o direito de posse sobre as informações utilizadas no treinamento dos sistemas de IA. O modelo de governança estabelecido estipula que o armazenamento de dados e dos próprios modelos de inteligência artificial deve ocorrer de forma estritamente local dentro dos territórios das comunidades envolvidas. Especialistas locais são incorporados ao processo de formulação tecnológica desde a fase de concepção do software, estruturando regras rígidas que dão às populações locais o poder absoluto de paralisar as coletas ou processamentos a qualquer etapa do pipeline de desenvolvimento.

Projetos práticos no Sul Global

Em consonância com as metas estabelecidas, a entidade anunciou recentemente o direcionamento de um fundo de US$ 3,2 milhões em subsídios para apoiar quatro organizações de base no Sul Global, localizadas no Quênia, no Líbano e na Amazônia brasileira. A distribuição desses recursos visa demonstrar a viabilidade prática do modelo de computação local. No Quênia, o grupo Masakhane lidera os esforços para criar conjuntos de dados de IA qualificados cobrindo mais de 50 línguas africanas, focando na aplicação dessas tecnologias em setores prioritários como a agricultura familiar, a saúde pública e a educação escolar.

Paralelamente, em outra frente de trabalho em Beirute, o Institute for Worldmaking do Líbano foca na digitalização da história cultural árabe e de práticas artísticas contemporâneas em bases de dados perfeitamente processáveis por computadores, com a garantia explícita de que o controle final sobre esse acervo de memória permaneça exclusivamente com as comunidades locais, ao invés de alimentar bases de dados proprietárias de corporações de tecnologia estrangeiras. No continente africano, a coalizão de defesa de direitos digitais African Internet Rights Alliance, também sediada no Quênia, dedica-se à construção de ferramentas robustas de auditoria que permitam escrutinar e responsabilizar legalmente os sistemas de IA operantes na região.

Preservação e soberania de dados

A implementação desses conceitos no Brasil assume um papel central de vanguarda no contexto da sustentabilidade ecológica e dos direitos indígenas. O projeto brasileiro Portal sem Porteiras foi um dos selecionados para receber a rodada de fomento da organização internacional. Focada na região da Amazônia, a iniciativa visa estruturar ferramentas de inteligência artificial de funcionamento inteiramente offline que possam ser utilizadas de forma segura e soberana por comunidades indígenas. A garantia técnica de manter a coleta de dados de maneira restrita e localizada dentro do território tradicional é essencial para evitar o extrativismo cognitivo e apoiar a manutenção de ecossistemas locais.

Essa proposta visa contrapor-se à visão mercadológica de que a eficácia da IA depende exclusivamente do aumento exponencial de escala e de bancos de dados massivos centralizados em infraestruturas estrangeiras. A diretora-geral da iniciativa destaca que o sucesso dessas tecnologias deve ser mensurado pelo seu impacto real de subsistência e preservação e não por métricas corporativas de tráfego. O objetivo é possibilitar, por exemplo, que um ancião indígena na Amazônia brasileira faça uso de uma solução computacional otimizada e local para salvaguardar e repassar conhecimentos ecológicos tradicionais de botânica em sua língua nativa para as futuras gerações.

A arquitetura técnica aberta

O desenvolvimento técnico destas soluções já apresenta resultados palpáveis que desafiam os longos prazos de entrega do mercado de software tradicional. O assistente de IA de código aberto Alpha Chat foi montado em apenas sete semanas por meio de um consórcio voluntário de dez organizações de tecnologia e pesquisa de prestígio global. Entre as participantes de destaque da coalizão figuram a plataforma de modelos Hugging Face, a fundação Mozilla e os laboratórios de pesquisa do MIT Media Lab, onde cada organização cedeu e integrou uma parte específica da infraestrutura tecnológica, abrangendo desde o modelo básico de processamento e recursos de computação na nuvem até avançados sistemas de moderação e segurança cibernética.

Além dos esforços diretos em assistentes conversacionais, a organização fechou uma aliança técnica com a startup japonesa Sakana AI, sediada em Tóquio, que ganhou notoriedade internacional pelo desenvolvimento de abordagens práticas voltadas para a chamada IA Soberana (Sovereign AI). O planejamento compartilhado entre a startup e a entidade prevê o desenho de uma pilha de software (stack) de inteligência artificial de código aberto e gratuito. Essa infraestrutura compartilhada será projetada para processar com alto rigor técnico as nuances culturais e estruturais do idioma japonês, servindo simultaneamente como modelo replicável para comunidades de menor representação econômica em todo o Sul Global que foram negligenciadas pela infraestrutura digital centralizada.

A viabilidade desses conceitos também foi demonstrada com sucesso na Índia, onde uma parceria firmada com a Bhashini — a divisão governamental de IA linguística indiana — resultou no desenvolvimento do dispositivo físico portátil Suno Sutra (termo traduzido do hindi como “crônicas de escuta”). O pequeno aparelho eletrônico de bolso executa modelos de processamento locais com suporte para 22 línguas indianas e dialetos regionais de forma offline, sem a obrigatoriedade de conexão com a internet. O projeto tem o código aberto aberto para a livre evolução e adaptação de comunidades globais de desenvolvedores, provando que é viável estender o alcance tecnológico para áreas desprovidas de infraestrutura de conectividade convencional.

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