Segurança

Phrack 72 lança novo manifesto e analisa 40 anos da cultura hacker

Com o manifesto de TMZ no volume 72 da Phrack, a comunidade analisa a mercantilização do hacking e as transformações na segurança cibernética.

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Tela de terminal antigo exibindo código verde em ambiente escuro com peças de hardware
Tela de terminal antigo exibindo código verde em ambiente escuro com peças de hardware

Em 2025, comemorando quatro décadas desde as suas primeiras transmissões por redes telefônicas e fóruns subterrâneos em 1985, a lendária publicação digital Phrack lançou a sua edição de número 72. O grande destaque do volume é o artigo "The Hacker's Renaissance - A Manifesto Reborn", escrito pelo pesquisador TMZ. A publicação apresenta um balanço direto sobre a evolução, a fragmentação e a cooptação corporativa do movimento hacker global, confrontando a transformação da cultura da curiosidade técnica em uma indústria altamente commoditizada de segurança cibernética.

O manifesto assinado por TMZ é dedicado expressamente a Loyd Blankenship, amplamente conhecido na subcultura pelo pseudônimo "The Mentor", autor do histórico texto "The Hacker's Manifesto" publicado em 1986. Ao revisitar as quatro décadas de existência da Phrack, a publicação contrasta a era dos sinais de discagem de modem, códigos de chamadas de longa distância desviados e quadros de avisos eletrônicos (BBSes) com o cenário de 2025, no qual o setor é dominado por grandes corporações, corretoras de vulnerabilidades zero-day e empreiteiros do setor de defesa militar.

Manifesto e edição de 2025

A análise de TMZ na Phrack ressalta que o manifesto original de 1986 emergiu como uma declaração de identidade frente à criminalização dos jovens que exploravam os bastidores dos computadores centrais (mainframes) e terminais **TTY**. A célebre citação original de The Mentor

"Nós existimos sem cor de pele, sem nacionalidade, sem preconceito religioso... e vocês nos chamam de criminosos"
— é reexaminada sob a ótica das transformações ocorridas até 2025, momento em que o espírito revolucionário da exploração computacional enfrenta a institucionalização comercial do mercado de tecnologia.

A edição número 72 da Phrack reúne uma coletânea técnica abrangente de pesquisadores proeminentes da cena global. Entre os artigos publicados ao lado do manifesto de TMZ estão estudos avançados como o de Orange Tsai sobre sua jornada em competições de Capture The Flag (CTF) em "The Art of PHP - My CTF Journey and Untold Stories!", a análise de mitigação de vulnerabilidades por mr_me em "Guarding the PHP Temple", e a documentação sobre ameaças persistentes avançadas em "APT Down - The North Korea Files", elaborada pelos pesquisadores Saber e cyb0rg.

Outras contribuições técnicas de relevância no volume 72 abordam a exploração de sistemas modernos, incluindo o trabalho de dukpt intitulado "A learning approach on exploiting CVE-2020-9273", a investigação de Karol Mazurek sobre "Mapping IOKit Methods Exposed to User Space on macOS", e a demonstração prática de Thomas Rinsma com o artigo "Popping an alert from a sandboxed WebAssembly module". A edição traz ainda descobertas de execução remota de código por Simon, Pedro e Jasiel em "Desync the Planet - Rsync RCE" e técnicas avançadas de reutilização de código por Yoav Shifman e Yahav Rahom no estudo "Quantum ROP".

Comercialização da cultura de pesquisa

O texto de TMZ argumenta categoricamente que a busca original por compreender o funcionamento interno dos sistemas foi mercantilizada. Se no início do movimento o objetivo principal era decifrar a arquitetura das máquinas para além do que os próprios criadores imaginavam, em 2025 a atividade foi reduzida a um cargo corporativo. Milhares de plataformas de Bug Bounty transformaram a sede de aprendizado em uma corrida por classificações em páginas de vulnerabilidades com identificadores CVE e recompensas materiais em forma de camisetas e incentivos financeiros.

O manifesto aponta que o treinamento técnico da atualidade foi canalizado para competições organizadas de CTF focadas primordialmente na construção de currículos profissionais para o mercado corporativo. Da mesma forma, engenheiros de reengenharia reversa agora ostentam crachás corporativos e desenvolvem **exploits** dentro de agências governamentais, submetendo descobertas a períodos de embargo comercial e sigilo, em vez de compartilhá-las abertamente com a comunidade de pesquisa independente como ocorria nas décadas passadas.

De acordo com o diagnóstico publicado na Phrack, os espaços libertários antes associados ao underground tecnológico foram pavimentados por fundos de capital de risco e estruturas rígidas de governança e conformidade corporativa (compliance). Essa transição redefiniu os parâmetros da indústria de segurança da informação, transformando o ato de contornar proteções computacionais em um serviço comoditizado e regulado por contratos comerciais.

Mudanças na arquitetura de sistemas

A transformação técnica também é um ponto central discutido por TMZ. Nos anos iniciais da microinformática, os hackers eram os criadores diretos dentro de um ecossistema de sistemas fechados, manipulando instruções em assembly através de tabelas de códigos de operação (opcodes) da mesma forma que músicos utilizam partituras. A confecção manual de códigos de shell (shellcode) exigia o domínio completo sobre toda a pilha de execução (stack) do hardware e do sistema operacional.

Em contraste com a era dos registradores de memória e falhas de segmentação (segfaults), a pesquisa de segurança contemporânea atua com camadas profundas de abstração. O manifesto destaca que os profissionais de hoje operam frequentemente sobre **blobs** binários opacos dentro de contêineres hospedados em infraestruturas de terceiros, realizando testes automatizados com ferramentas de **fuzzing** em aplicações criadas para o motor **v8** rodando em clusters de **Kubernetes** ou analisando interfaces de programação de aplicações (APIs) mantidas por grandes fornecedores de software.

O texto enfatiza uma crítica severa ao nível de conhecimento fundamental de parte dos novos praticantes da área. TMZ observa que uma parcela expressiva de indivíduos que se intitulam pesquisadores ou especialistas em cibersegurança opera sem nunca ter depurado um erro de **segfault** diretamente na memória ou sequer ter lido integralmente uma solicitação de comentários (RFC), a norma técnica fundamental que rege os protocolos da internet.

Redes clandestinas e visibilidade digital

A publicação resgata a relevância de veículos históricos da contracultura digital, citando a própria revista Phrack como a pedra de Roseta da comunidade, a revista impressa 2600 como referência editorial e os canais de **IRC** como ambiente sagrado de troca de conhecimentos. Naquele período, as publicações digitais independentes (zines) eram copiadas e distribuídas livremente sem qualquer objetivo de monetização, e o respeito entre pares era conquistado unicamente através da contribuição de ferramentas funcionais, ideias originais e código-fonte.

Esse ecossistema tradicional é confrontado por TMZ com a cultura de influência digital das redes sociais em 2025. O manifesto ironiza a proliferação de sequências intermináveis com dezenas de postagens no X (antigo Twitter) explicando comandos básicos do sistema como o sudo, além de vídeos em plataformas como o TikTok contendo figurantes vestindo casacos com capuz ao som de música **trap**, criando uma caricatura superficial do hacker tradicional para a captação de métricas de engajamento.

Apesar da superexposição midiática e da fusão das figuras do influenciador digital e do pesquisador de segurança na mesma cartela de clientes, o manifesto assegura que o núcleo da subcultura não desapareceu. O trabalho técnico contínuo e independente migrou para canais criptografados na rede **Matrix**, repositórios Git em pontos de troca anônimos (**dead drops**) e fóruns ocultos na rede **onion**, onde desenvolvedores e analistas preservam a troca não comercial de dados.

Projetos da edição e comunidade

Além dos debates conceituais e das análises sobre o setor de softwares, a edição 72 da Phrack traz artigos focados em arquitetura de hardware e análise comportamental de sistemas. O trabalho de Jakob Bleier e Martina Lindorfer explora a identificação de padrões em **"Revisiting Similarities of Android Apps"**, enquanto Peter Honeyman investiga aspectos físicos dos semicondutores no artigo **"Money for Nothing, Chips for Free"**.

O campo da instrumentação e análise formal também ganha destaque no volume com a contribuição de Jex Amro em **"E0 - Selective Symbolic Instrumentation"**, além do estudo de Jon Gaines em **"Roadside to Everyone"**. Completam a lista técnica das seções centrais a análise de ameaças em nível de silício por uty em **"A CPU Backdoor"** e a investigação de infraestrutura realizada por tgr sob o título **"The Feed Is Ours"**, acompanhados pelas seções tradicionais da equipe editorial da revista, como a **Phrack Prophile** sobre o pesquisador **Gera**, além das seções **Linenoise** e **Loopback**.

O manifesto reforça que a essência do hacking não dependia exclusivamente das ferramentas computacionais ou da invasão de redes, mas da defesa incondicional da liberdade intelectual. TMZ lista manifestações concretas onde essa postura ainda se faz presente no ecossistema atual:

  • Administradores de sistemas que mantêm servidores de e-mail próprios de forma independente;
  • Estudantes que soldam módulos de comunicação **WiFi** em calculadoras das décadas de 1980;
  • Pesquisadores de segurança que publicam demonstrações de conceito (**PoC**) de falhas sem vincular as descobertas a campanhas de marketing pessoal;
  • Coletivos de tecnologia que realizam ramificações (**forks**) de hardware com código fechado apenas para examinar seus componentes internos.

Reflexos para o mercado brasileiro

Para os profissionais, desenvolvedores e estudantes do cenário de tecnologia no Brasil, as considerações apresentadas no volume 72 da Phrack trazem implicações diretas sobre a formação técnica e a atuação no mercado local. O crescimento vertiginoso do mercado de segurança da informação no país, impulsionado por regulamentações e pelo aumento das operações digitais corporativas, reflete exatamente a transição descrita por TMZ entre o aprendizado autodidata e a dependência de certificações comerciais.

O manifesto lança um alerta explícito direcionado à nova geração de entusiastas de tecnologia, recomendando que não confundam certificações acadêmicas ou corporativas com competência técnica real. O texto adverte contra a substituição de comunidades genuínas por plataformas comerciais e contesta a noção de que os processos formais de divulgação responsável (**responsible disclosure**) devam ser interpretados como uma necessidade de pedir permissão para exercitar a curiosidade técnica sobre os sistemas em operação.

A orientação final transmitida ao longo das páginas da publicação de 2025 defende o estudo profundo dos clássicos da computação, a análise rigorosa dos protocolos de rede e a execução de infraestruturas próprias. Marcando 40 anos de publicação contínua desde 1985, a Phrack conclui sua edição com uma chamada à continuidade da autonomia técnica, reafirmando seu posicionamento histórico com a máxima tradicional do movimento:

"Hack the planet. Again."

#Phrack#Hacking#CVE-2020-9273#Segurança da Informação#Cibersegurança
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