AegisAI capta US$ 36 milhões para deter ataques de spear phishing criados por IA
AegisAI, fundada por ex-executivos de segurança do Google, levanta US$ 36 milhões em rodada Série A liderada pela Battery Ventures para combater spear phishing.
Ativistas e vigilantes mascarados destroem câmeras de reconhecimento de placas nos EUA em reação ao avanço da vigilância em massa da Flock Safety.
Em uma noite do mês de junho, do outro lado da rua de uma lanchonete da rede Taco Bell, um ativista mascarado conhecido online como NoMark passou cerca de uma hora caminhando entre arbustos antes de agir. Com o rosto coberto por uma máscara preta, ele subiu alguns pés na estrutura de um poste, cobriu a lente de um leitor automático de placas (ALPR) com fita adesiva e cortou os fios de energia do equipamento. O influenciador, apelidado pelo jornal Minnesota Star Tribune de "Batman de Minneapolis" e acumulando mais de 700 mil seguidores no Instagram e no TikTok, assumiu o risco de ser preso para desativar o dispositivo fabricado pela empresa Flock Safety.

A investida de NoMark em Minneapolis não se trata de um evento isolado no cenário norte-americano. Um levantamento minucioso realizado pelo jornal The Guardian identificou pelo menos 33 casos documentados de pessoas danificando, obstruindo ou destruindo câmeras da Flock Safety em 23 estados dos Estados Unidos. Todas as ocorrências registradas pela investigação jornalística carregam a mensagem explícita de protesto contra o monitoramento governamental desmedido e a ausência de autorizações judiciais para o rastreamento da população.
Avaliada em US$ 8,4 bilhões e sediada no estado da Geórgia, a Flock Safety tornou-se o alvo central de uma crescente onda de rejeição popular. Antes de voltar sua atenção para a infraestrutura de vigilância urbana, NoMark ganhou visibilidade nas redes sociais ao publicar vídeos em que intervinha em brigas na porta de bares e invadia uma refinaria de petróleo local por considerar que o estabelecimento poluía severamente a cidade. Falando sob condição de anonimato para discutir atos potencialmente ilegais, o vigilante afirmou que desativar as câmeras é a única resposta viável diante da velocidade com que esses dispositivos são instalados pelo país.
Os leitores automáticos de placas fabricados pela Flock Safety são caracterizados por caixas pretas de captura óptica montadas em postes e alimentadas por painéis solares retangulares. A tecnologia captura imagens contínuas de veículos em trânsito e cruza as informações instantaneamente com bancos de dados policiais. De acordo com informações institucionais divulgadas pela própria empresa, seus sensores registram placas e características de veículos bilhões de vezes por mês em cerca de 6.000 comunidades distribuídas por quase todos os estados norte-americanos.
Em uma publicação oficial lançada em seu blog corporativo no mês de fevereiro, a Flock Safety defendeu publicamente sua tecnologia, afirmando que seus equipamentos de ALPR "não são ferramentas de vigilância em massa" e sustentando que o sistema "não pode rastrear veículos, muito menos indivíduos". Contudo, o material publicitário do site da própria companhia promete aos órgãos de segurança a capacidade de "parar o crime em tempo real", enviando alertas automáticos aos agentes policiais no exato instante em que um automóvel considerado suspeito passa pelo raio de cobertura das lentes.
A sofisticação das ferramentas de busca da empresa estendeu o alcance do monitoramento para além da simples identificação numérica de automóveis. Na semana passada, uma reportagem do portal de jornalismo investigativo 404 Media revelou que policiais utilizaram o sistema de busca da Flock Safety para rastrear indivíduos com base em marcas corporais e vestimentas específicas. As pesquisas permitiram a localização de pessoas a partir do registro de **tatuagens** aparentes e **camisetas específicas**, ampliando o escopo da vigilância sobre cidadãos em espaços públicos.
Entidades de defesa dos direitos civis e da privacidade apontam que a tecnologia permite a varredura contínua do deslocamento de cidadãos sem qualquer relação com investigações criminais e sem a exigência de mandados judiciais. Além disso, defensores da privacidade alertam que o órgão de imigração dos Estados Unidos, o Immigration and Customs Enforcement (ICE), utiliza brechas jurídicas para acessar as imagens da Flock Safety para perseguir imigrantes. Registros públicos também revelam que diversos policiais foram demitidos por utilizar indevidamente as câmeras para praticar **stalking** e perseguir pessoas por motivações estritamente pessoais.
As táticas adotadas pelos ativistas nas ruas variam do corte direto de cabos até intervenções artísticas e tecnológicas elaboradas. Ações identificadas em campo incluem o **"paint bombing"** (arremesso de tintas sobre as lentes), a instalação de bandeiras dos Estados Unidos no topo dos postes vandalizados e a pintura de mensagens sarcásticas como "hahaha get wrecked ya surveilling fucks". Para evitar penalidades graves por destruição patrimonial, usuários do fórum Reddit passaram a compartilhar arquivos de modelagem **3D** para impressão de peças plásticas projetadas para cobrir a visão do sensor sem danificar o equipamento.
Outros manifestantes adotam estratégias de guerra psicológica e desinformação corporativa. Influenciadores contrários à vigilância passaram a criar e circular falsas cartas de notificação extrajudicial (*cease-and-desist*) atribuídas à própria Flock Safety, tirando proveito da imagem pública desgastada da empresa de tecnologia. Paralelamente, em postagens nas redes sociais, internautas criam álibis fictícios para proteger a identidade dos acusados, afirmando nos comentários que os suspeitos estavam resgatando cachorros de rua ou servindo refeições em cozinhas comunitárias no horário dos incidentes.
"Eu não tenho medo de fazer as coisas se acho que estão certas. Essas coisas estão surgindo tão rápido pelo país que esta é praticamente a única maneira de combatê-las."
— NoMark, ativista em entrevista ao The Guardian
Apesar de NoMark alegar já ter desativado mais de **uma dúzia de câmeras** sem ter sido identificado pela polícia de Minneapolis, outros manifestantes enfrentam acusações criminais graves em diferentes estados. Em **Suffolk**, no estado da **Virgínia**, o morador **Jeffrey Sovern** foi indiciado por destruição de propriedade sob a acusação de ter danificado mais de **12 câmeras** da **Flock Safety**. Sovern não admitiu a autoria do crime às autoridades, mas declarou formalmente aos policiais que considera a presença dos dispositivos inconstitucional.
Em uma página criada na plataforma de arrecadação GoFundMe para custear as despesas com sua defesa jurídica, **Jeffrey Sovern** destacou o impacto do seu caso na discussão sobre direitos civis e liberdades individuais frente ao avanço das tecnologias de monitoramento contínuo em áreas urbanas.
"Vou aproveitar o lado positivo de que isso pode ser o catalisador de um movimento maior para retroceder a vigilância intrusiva."
— Jeffrey Sovern, indiciado no estado da Virgínia
No estado do **Novo México**, o cidadão **Jevon Martinez** foi detido pela polícia local acusado de destruir **13 câmeras** da **Flock Safety**. Ao ser questionado pela emissora de televisão local **KRQE** se continuaria desativando os equipamentos de monitoramento, Martinez respondeu afirmativamente sem hesitar. Reportagens locais indicaram que uma placa deixada no local de um dos ataques trazia os dizeres: "De nada, República do Novo México".
"Com certeza. Elas são uma ameaça clara e presente à segurança pública."
— Jevon Martinez, em entrevista à emissora KRQE
Diante do aumento das ocorrências de danos patrimoniais, a resposta executiva da empresa e das agências de segurança pública foi imediata. O presidente executivo da **Flock Safety**, **Garrett Langley**, criticou publicamente os opositores do sistema de monitoramento, afirmando que os defensores da privacidade que criticam os dispositivos buscam "normalizar a ilegalidade" e "enfraquecer a segurança pública". A empresa sustenta que seus sistemas são fundamentais para que as polícias solucionem crimes graves e localizem veículos roubados.
Em meados de julho, a **Flock Safety** publicou um artigo técnico em seu blog oficial abordando o suporte prestado a órgãos governamentais no caso de vandalismo contra a infraestrutura instalada. Na publicação, a empresa afirmou que "já planejou para essa contingência" e destacou que oferece planos corporativos de proteção e substituição rápida para órgãos públicos contratantes cujas câmeras venham a ser danificadas por ações de vigilantes.
A preocupação com a integridade das redes de vigilância alcançou o topo da hierarquia de inteligência dos Estados Unidos. Uma investigação do jornalista **Dan Boguslaw** revelou que dezenas de **fusion centers** estaduais — centros colaborativos onde agências federais, estaduais e locais compartilham dados de inteligência — circularam memorandos internos durante o verão instruindo os policiais a monitorarem o ativismo contra a **Flock Safety** sob diretrizes de proteção à segurança nacional.
Um relatório de inteligência obtido por Boguslaw, emitido por uma agência do estado de **Wisconsin**, solicitou o aumento do patrulhamento ostensivo e da vigilância policial durante eventos de protesto e manifestações agendadas, citando especificamente uma "semana nacional de ação" prevista para meados de agosto. O boletim de inteligência orientou expressamente que todas as forças policiais locais reportem imediatamente qualquer evento de "vandalismo, interrupção ou sabotagem" contra os **ALPRs** aos centros de fusão federais.
A oposição à **Flock Safety** não se limita a atos de destruição física e se organiza também por meio de plataformas colaborativas abertas. A organização de base **DeFlock** desenvolveu um mapa dinâmico alimentado por usuários que já catalogou a localização exata de mais de **115 mil câmeras ALPR** em todo o território norte-americano. O site da **DeFlock** oferece ferramentas para que motoristas verifiquem se suas placas foram consultadas no sistema da empresa, tracem rotas de navegação que evitem os sensores e acompanhem datas de audiências públicas municipais sobre licitações de vigilância.
A repercussão da plataforma **DeFlock** gerou forte atrito com a liderança da **Flock Safety**. O CEO **Garrett Langley** chegou a classificar publicamente a organização de mapeamento como "terrorista". Pouco tempo depois, o executivo usou sua conta na rede social **X** para se retratar pelo adjetivo utilizado, atribuindo a popularidade da **DeFlock** à "resposta inadequada da empresa às dúvidas e preocupações legítimas que a população possui sobre os ALPRs".
Pressionada pelo desgaste de imagem e pelas críticas de ativistas, a **Flock Safety** começou a alterar o escopo de suas tecnologias. A empresa anunciou o cancelamento definitivo do desenvolvimento da ferramenta "human distress detection" (detecção de angústia humana), um recurso de áudio projetado para gravar continuamente o ambiente urbano e identificar gritos e ruídos de socorro em vias públicas.
No âmbito institucional, a resistência política tem colhido resultados diretos em diversas regiões dos Estados Unidos. Mais de **80 cidades** norte-americanas cancelaram, recusaram a renovação ou rejeitaram propostas de contratos com a **Flock Safety**, determinando a desativação de dispositivos em municípios de grande porte como **Austin**, no Texas, e **Denver**, no Colorado. Apesar do desligamento formal das câmeras em alguns locais, ativistas permanecem em alerta quanto ao eventual compartilhamento indireto de dados entre jurisdições vizinhas.
A contestação jurídica também chegou ao Poder Legislativo norte-americano. No início deste mês, um parlamentar do estado do **Texas** apresentou um projeto de lei que estabelece a obrigatoriedade de mandado judicial prévio para que agências de aplicação da lei possam acessar os dados de circulação coletados pelas câmeras da **Flock Safety**. A proposta visa criar uma barreira legal contra o acesso irrestrito aos históricos de deslocamento dos cidadãos.
Mesmo onde o movimento comunitário tenta utilizar as vias institucionais, os manifestantes relatam barreiras burocráticas impostas pelo poder público. Em **Norfolk**, no estado da **Virgínia**, o grupo local da **DeFlock** declarou que não incentiva a destruição de equipamentos, mas ressaltou que entende a frustração popular. Em uma reunião do conselho municipal realizada no mês passado, o prefeito da cidade limitou o tempo de fala e o número de oradores que pretendiam criticar o contrato com a **Flock Safety**, sob a alegação de evitar comentários repetitivos, conforme reportou o jornal **The Virginian-Pilot**.
"Reconhecemos que isso é o resultado inevitável de um sistema projetado para impedir que as vozes das pessoas sejam ouvidas."
— Porta-voz do grupo **DeFlock** em Norfolk, Virgínia
Enquanto o debate avança nas câmaras municipais, o ativismo de rua mantém sua dinâmica de atuação noturna. Em Minneapolis, **NoMark** relata receber dezenas de mensagens diárias de seguidores interessados em replicar os ataques ou pedindo orientações técnicas sobre como desativar os leitores de placas sem correr riscos de prisão. O influenciador afirma manter respostas genéricas para evitar implicações legais que possam levar seus seguidores à prisão, recomendando apenas que os ativistas evitem dirigir veículos próprios até os locais e operem no meio da noite.
O vigilante de Minneapolis instrui seus interlocutores a cobrirem totalmente o corpo, incluindo o rosto e as mãos, além de manterem o foco no bloqueio físico dos sensores. Ele enfatiza que a transformação na política de segurança pública exige tanto a pressão política sobre representantes eleitos quanto ações diretas nas ruas, ressaltando que participar de reuniões de conselhos municipais sem máscara — algo que ele próprio já fez — é importante, mas moroso.
"Quanto mais tempo você demora, mais dados eles obtêm sobre as pessoas."
— NoMark, sobre a lentidão das decisões institucionais
O fenômeno registrado nos Estados Unidos reflete dilemas tecnológicos que também começam a emergir no ecossistema de segurança pública do Brasil. Municípios brasileiros têm expandido aceleradamente redes de monitoramento urbano conhecidas como "cidades inteligentes", implementando sistemas de **ALPR** para leitura de placas e cercamento digital. Contudo, a ausência de parâmetros claros de transparência e o risco de desvio de finalidade na consulta a esses dados colocam as iniciativas locais sob o escrutínio da **Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)**.
A escalada do conflito entre a **Flock Safety**, agências de inteligência e vigilantes mascarados demonstra que a vigilância contínua em áreas públicas sem consentimento ou controle judicial enfrenta uma resistência popular cada vez mais organizada. Quer por meio de mapas abertos como o da **DeFlock**, quer por meio de ferramentas de corte de fiação operadas no escuro por figuras como **NoMark**, a sociedade civil sinaliza que o avanço dos algoritmos sobre o espaço público não ocorrerá sem contestação.
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