Travis Kalanick mira robotaxis com a Atoms e investimento da Uber
Com aporte de US$ 1,7 bilhão da Andreessen Horowitz e US$ 100 milhões da Uber, a Atoms de Travis Kalanick planeja entrar no setor de veículos autônomos.
Hannah Earley e a Vaire Computing desenvolvem chips reversíveis com ressonador microscópico que recuperam calor para reduzir o consumo de energia.
Aos 31 anos, a engenheira e pesquisadora Hannah Earley, cofundadora e diretora de tecnologia (CTO) da startup Vaire Computing, está desafiando um dos pilares mais fundamentais da microeletrônica moderna: a dissipação de energia em forma de calor residual. Enquanto a indústria tradicional de semicondutores sempre tratou o calor como uma consequência física inevitável de qualquer cálculo computacional, a engenheira sustenta que essa perda térmica decorre diretamente de uma escolha de arquitetura. Utilizando os conceitos da chamada computação reversível, a empresa desenvolve processadores desenhados para recuperar e reaproveitar a eletricidade que normalmente seria descartada no ambiente.

O problema combatido por Hannah Earley e pela Vaire Computing reside no modo como as arquiteturas convencionais processam dados digitais. Nos chips tradicionais, cada etapa intermediária de uma operação lógica simplesmente apaga a informação anterior para liberar espaço para o próximo estado, dissipando a energia contida naquela transição diretamente em calor. Earley descreve esse processo fazendo uma analogia com a condução veicular: trata-se do equivalente a dirigir um carro em alta velocidade por uma cidade e pisar bruscamente no freio em cada cruzamento. O veículo perde todo o seu momento linear e, em seguida, precisa queimar combustível adicional do zero para voltar a acelerar.
A abordagem da computação reversível apresentada pela Vaire Computing propõe uma mecânica oposta: manter o fluxo contínuo de energia. Em vez de descartar os estados intermediários ao longo de uma computação, o circuito mantém essas informações preservadas, permitindo executar o cálculo em sentido inverso para recuperar parcelas expressivas da energia consumida. Embora essa fundamentação teórica tenha sido formulada pela primeira vez há mais de 50 anos, as implementações práticas esbarraram historicamente nas limitações físicas dos transistores de silício e nas topologias de circuitos conhecidas, que inviabilizavam a recuperação líquida de trabalho elétrico.
Para destravar a computação reversível, Hannah Earley decidiu abandonar as premissas convencionais de montagem de transistores e repensou do zero o hardware necessário para a reciclagem termodinâmica. A pesquisadora projetou um tipo proprietário de ressonador microscópico, cuja patente já foi depositada, dedicado especificamente a capturar, reter e devolver a energia gerada durante as transições de chaveamento elétrico no circuito para reutilização posterior. Explicando o dispositivo de forma direta, a própria Earley resume:
“É realmente um pêndulo glorificado.”
A comprovação prática dessa abordagem ocorreu no ano passado, quando a Vaire Computing anunciou um marco que validou a proposta técnica: a fabricação de um chip integrado com esse ressonador capaz de recuperar mais energia do que aquela perdida durante os ciclos operacionais. Crucialmente, esse balanço energético positivo persistiu mesmo após a equipe de Earley subtrair a carga elétrica estritamente necessária para alimentar e manter o próprio componente em funcionamento, fornecendo uma base empírica para um segmento da microeletrônica que até então existia majoritariamente apenas em artigos teóricos.
A importância desse resultado da Vaire Computing foi pontuada pelo pesquisador de automação de design eletrônico Igor Markov, ex-professor da Universidade de Michigan em Ann Arbor. Analisando o desenvolvimento, Markov declarou publicamente:
“Está claro que eles têm algo interessante.”
Ainda assim, o pesquisador enfatiza que o estágio da tecnologia permanece embrionário, observando que a companhia precisará conduzir uma sequência contínua de demonstrações progressivamente mais realistas e convincentes se quiser atrair o respaldo comercial e o interesse de fabricantes para viabilizar sua produção em larga escala.
O caminho que conduziu Hannah Earley à fundação da Vaire Computing começou na infância. Aos nove anos de idade, ela já escrevia suas primeiras linhas de código, começando pelo desenvolvimento voltado à web e avançando rapidamente para linguagens como Perl e Java. Conforme sua curiosidade técnica se aprofundava, Earley passou a transitar das camadas superiores e abstratas de software em direção aos níveis físicos inferiores da computação, investigando circuitos lógicos até atingir a escala dos transistores individuais.
Essa trajetória levou Earley a ingressar no programa de doutorado da Universidade de Cambridge, onde passou a conduzir suas investigações sob a orientação direta do biólogo computacional Gos Micklem. O plano de pesquisa inicial mirava outra fronteira pouco explorada: o uso de materiais biológicos, especificamente fitas de DNA, como substrato físico para a execução de cálculos matemáticos. Contudo, poucos meses após o início dos trabalhos laboratoriais, uma indicação de leitura fornecida por Micklem alterou drasticamente o foco acadêmico da estudante.
O orientador Gos Micklem compartilhou com Earley a tese de doutorado defendida em 1999 por Michael Frank, um dos pesquisadores pioneiros na exploração das propriedades da computação reversível. Earley leu o trabalho acadêmico de Frank com ceticismo em uma primeira passagem, revisitou os cálculos uma segunda vez e dedicou semanas consecutivas a analisar suas equações termodinâmicas. A partir dessa imersão teórica, a pesquisadora desenvolveu a convicção técnica de que a relação intrínseca entre informação, entropia e calor dissipado poderia redefinir o paradigma de engenharia de computadores.
Esse redirecionamento reconfigurou integralmente o doutorado de Hannah Earley em Cambridge. Ela se concentrou na análise rigorosa dos limites físicos da computação e construiu ferramentas de software capazes de converter rotinas de código convencionais em programas com lógica matematicamente reversível. O avanço de Earley nesse nicho foi tão profundo e autônomo que o próprio Gos Micklem abriu mão da coautoria em suas publicações:
“No fim das contas, eu não a deixava colocar meu nome em nenhum de seus artigos, porque sentia que não conseguiria subir ao palco e fazer uma palestra adequada sobre eles. Aquele trabalho era todo dela.”
Após concluir formalmente seu doutorado na Universidade de Cambridge em 2021, Hannah Earley cruzou caminhos com Rodolfo Rosini, um experiente investidor e empreendedor do setor de tecnologia. Compartilhando a visão de que a barreira térmica das CPUs e GPUs convencionais exigia uma ruptura estrutural, a dupla cofundou a Vaire Computing ainda em 2021. Desde o lançamento, a startup já captou mais de US$ 12 milhões em rodadas de financiamento com investidores institucionais e contratou como cientista sênior o próprio Michael Frank, cuja tese acadêmica de 1999 havia inspirado Earley anos antes.
A consolidação da arquitetura da Vaire Computing, contudo, demandou jornadas de engenharia extremas. Durante o inverno de 2022, na cidade de Grinnell, localizada no estado norte-americano de Iowa, Hannah Earley passou semanas isolada no apartamento subterrâneo de sua atual esposa enquanto a sensação térmica do lado de fora atingia marcas de aproximadamente -40 °F (cerca de -40 °C). Enfrentando o isolamento do frio de Iowa, a engenheira cobriu repetidamente um quadro branco com os esquemas elétricos que serviriam de base para viabilizar a lógica de seu circuito reversível.
O refinamento final do diagrama esquemático ocorreu somente após o casal viajar para Las Vegas, escapando do inverno rigoroso de Iowa. Em vez de uma revelação abrupta, Earley relata que a conclusão dos cálculos operacionais do circuito provocou uma sensação imediata de alívio técnico, trazendo a confirmação pessoal de que ela não estava fora de sua profundidade científica.
Com o circuito comprovado em ambiente laboratorial e o ressonador funcional patenteado, a Vaire Computing e a equipe liderada por Hannah Earley enfrentam agora o obstáculo mais crítico para qualquer novidade no setor de semicondutores: a compatibilidade com a cadeia de suprimentos existente. Para ter relevância prática, o chip radicalmente diferente projetado por Earley precisa ser integrado às linhas de produção de litografia convencionais e aos sistemas computacionais familiares já adotados pela indústria global.
A relevância comercial dessa transição é amplificada pela atual demanda por infraestrutura de centros de processamento de dados e dispositivos portáteis. Segundo Earley, a estratégia da Vaire Computing visa justamente aliviar o consumo de energia em data centers maciços, além de estender de forma considerável a autonomia de notebooks e celulares ao suprimir a necessidade de sistemas pesados de arrefecimento. No cenário de infraestrutura de dados — que no Brasil e no mundo enfrenta pressões crescentes de custos elétricos —, a contenção da dissipação térmica em nível de chip representa um ganho direto na razão entre consumo energético e capacidade computacional.
Para Earley, no entanto, soluções paliativas que apenas aprimoram o silício tradicional já não são suficientes para responder aos gargalos físicos impostos pela geração de calor. A engenheira sustenta que o avanço tecnológico real exige reconstruir o ecossistema computacional desde suas camadas mais primitivas com foco na reversibilidade lógica. Em suas próprias palavras:
“Quero enfrentar cada parte de como os computadores são construídos e repensá-la nesses termos.”
O cronograma da Vaire Computing depende agora de traduzir a vitória laboratorial do ressonador microscópico em circuitos integrados de maior complexidade lógica. Caso consiga apresentar as validações exigidas por especialistas como Igor Markov e demonstrar viabilidade fabril perante a indústria, a iniciativa encabeçada por Earley, Rodolfo Rosini e Michael Frank poderá finalmente transformar a computação reversível de uma curiosidade acadêmica cinquentenária em um padrão viável para o hardware de alto desempenho.
Fontes:
Com aporte de US$ 1,7 bilhão da Andreessen Horowitz e US$ 100 milhões da Uber, a Atoms de Travis Kalanick planeja entrar no setor de veículos autônomos.
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