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Análise detalhada sobre como alegações de moderação ideológica redefiniram a política externa e de segurança digital do governo americano.
Em abril de 2025, funcionários do hub de Combate à Manipulação e Interferência de Informações Estrangeiras (R/FIMI), uma unidade do Departamento de Estado dos Estados Unidos voltada para o monitoramento de desinformação externa, foram convocados para uma reunião de emergência com apenas 30 minutos de antecedência. O encontro foi conduzido por Darren Beattie, que atuava como subsecretário interino de diplomacia pública, para anunciar o encerramento imediato do órgão e a demissão sumária da equipe. A dissolução da estrutura ocorreu após meses de cortes promovidos pelo Departamento de Eficiência Governamental, liderado por Elon Musk, que já vinha reduzindo quadros em diversas agências federais americanas.

A desativação do R/FIMI foi celebrada abertamente pela cúpula do governo americano em uma transmissão pública. Pouco tempo depois do anúncio interno, o Secretário de Estado Marco Rubio declarou o fim das atividades em uma entrevista em vídeo concedida ao ativista digital Mike Benz. Durante a conversa, a medida foi classificada como o encerramento do financiamento estatal para práticas de limitação de discurso em plataformas digitais.
Terminamos com a censura patrocinada pelo governo nos Estados Unidos por meio do Departamento de Estado.
A retórica utilizada por Marco Rubio reflete uma teoria articulada há anos por **Mike Benz** e outros influenciadores de direita, baseada na premissa de que o governo federal americano mantinha uma estrutura coordenada com universidades, ONGs e gigantes de tecnologia para suprimir a liberdade de expressão de grupos conservadores. Essa narrativa ganhou tração a partir do início de 2023, consolidando o termo complexo industrial da censura como conceito central da atuação política do grupo.
A reformulação das diretrizes governamentais não ficou restrita ao Departamento de Estado dos EUA e afetou múltiplos órgãos de inteligência e cooperação internacional. Estruturas como a Agência de Segurança de Infraestrutura e Cibersegurança (CISA), vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS), a Força-Tarefa de Influência Estrangeira do FBI e a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) passaram por processos severos de desmonte ou reestruturação. O antecessor do R/FIMI, o Centro de Engajamento Global (GEC), também foi alvo central dessas medidas.
A origem dessas tensões remonta a 2016, quando denúncias anônimas acusaram o Facebook de manipular a seção de tópicos em alta para omitir notícias de veículos conservadores. Naquele mesmo ano, as operações de interferência russa identificadas nas eleições presidenciais americanas e na votação do **Brexit** no Reino Unido pressionaram os ecossistemas digitais a intensificar os filtros de integridade e moderar conteúdos maliciosos.
A Rússia fez o dever de casa tão bem que o tipo de coisa gerada por propagandistas russos não era diferente do que pessoas nos Estados Unidos diriam.
Segundo a pesquisadora Dannagal Young, da Universidade de Delaware, a sobreposição entre as narrativas de propagandistas externos e o discurso político doméstico criou um ambiente de desconfiança generalizada. As ações corretivas tomadas pelas Big Techs frequentemente atingiam contas legítimas que violavam os termos de uso sobre desinformação, alimentando a sensação de perseguição ideológica entre usuários de perfil conservador.
Com o endurecimento das regras nas redes sociais hegemônicas, surgiram plataformas alternativas focadas na promessa de ausência de filtros e moderação restritiva. Redes como Parler e Gab atraíram um público focado no debate de direita, mas enfrentaram barreiras operacionais severas quando foram removidas das lojas de aplicativos da Apple e do Google, além de perderem suporte em serviços de hospedagem de infraestrutura e processamento de pagamentos.
Episódios específicos reforçaram a tese de parcialidade das plataformas de tecnologia ao longo dos anos seguintes. Em 2018, acusações de corte de alcance não declarado, conhecido como shadow-banning, ganharam força no Twitter. Em 2020, o bloqueio temporário de reportagens sobre o notebook de Hunter Biden por grandes plataformas ampliou o ceticismo sobre os critérios utilizados pelas equipes de integridade das empresas de tecnologia.
O estouro da pandemia de covid-19 em 2020 acelerou a aplicação de políticas rigorosas de checagem de fatos por empresas como YouTube, Facebook e Twitter. Contas de figuras públicas conhecidas pela contestação de vacinas, como Robert F. Kennedy Jr., sofreram sanções e banimentos diretos sob alegação de violação das diretrizes de saúde pública estabelecidas pelas agências governamentais.
Os desdobramentos dos eventos de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio dos EUA representaram um ponto de virada definitivo na gestão de redes sociais. A remoção do ex-presidente Donald Trump das principais redes digitais, fundamentada no risco de incitação à violência, foi interpretada por seus apoiadores como a prova máxima da existência de uma aliança institucional voltada a remover vozes conservadoras da esfera pública.
Em participação no podcast apresentado por Joe Rogan, o ativista Mike Benz argumentou que o banimento de Trump em 2020 foi articulado por uma rede complexa que envolvia o ecossistema militar e organizações não governamentais. A tese difundida por Benz sustentava que o controle narrativo das plataformas digitais interferiu diretamente no resultado eleitoral americano.
Foi quando Trump foi censurado até o esquecimento em 2020 pelo governo dos EUA debaixo do seu nariz, trabalhando com redes de ONGs externas, que ele perdeu.
Tentativas institucionais de organizar o combate à desinformação enfrentaram fortes reações políticas no Congresso dos EUA. A criação do Conselho de Governança de Desinformação pelo DHS em abril de 2022, sob a liderança da especialista Nina Jankowicz, que possuía experiência no combate à propaganda russa na Europa Oriental, foi cancelada após intensa pressão pública e críticas direcionadas à falta de clareza das atribuições do órgão.
A transição dessas ideias para o centro da formulação de políticas públicas americanas afetou diretamente os mecanismos internacionais de cooperação de segurança. A desmontagem das divisões do Departamento de Estado como o R/FIMI comprometeu parcerias estratégicas firmadas com a União Europeia para o monitoramento de campanhas digitais de desinformação operadas por governos estrangeiros.
Especialistas da área de inteligência, como o ex-instrutor do Instituto do Serviço Exterior David Millar, apontam que o conceito de manipulação de fatos reais é a base das campanhas modernas de propaganda militar. A ampliação desproporcional de eventos verdadeiros é a ferramenta primária para desestabilizar a confiança pública em instituições democráticas.
A redefinição da diplomacia digital americana também gerou atritos regulatórios internacionais. O questionamento de legislações como o Ato de Serviços Digitais (DSA) da União Europeia passou a fazer parte da pauta oficial de órgãos diplomáticos dos EUA, sob o argumento de que regras europeias de moderação afetam a liberdade de expressão de cidadãos americanos online.
As transformações na política de moderação de conteúdo dos Estados Unidos têm reflexos diretos nas operações das Big Techs na América Latina. Como as diretrizes de integridade e as equipes globais de confiança e segurança (Trust and Safety) das redes sociais estão concentradas na matriz americana, o desmonte de divisões internas altera os padrões de moderação aplicados em países como o Brasil.
No cenário brasileiro, o debate sobre o controle de redes sociais e o papel das plataformas digitais no combate a fake news ganha novos contornos com a mudança de postura institucional nos EUA. Argumentos embasados na crítica ao controle estatal sobre o discurso online passam a alimentar discussões regulatórias no Congresso Nacional e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relativas à responsabilidade civil das plataformas.
A desativação de iniciativas como o GEC e o R/FIMI altera profundamente a dinâmica de checagem global de fatos e a contenção de ingerências digitais externas. O novo cenário impõe desafios adicionais a países que dependem de cooperação internacional de inteligência cibernética para mapear redes automatizadas e campanhas coordenadas de manipulação de dados na internet.
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