Science Corporation restaura visão com implante em paciente com Stargardt
Com chip PRIMA de 2x2 mm, Science Corporation devolve leitura a paciente com doença de Stargardt na Austrália. Conheça os dados técnicos.
O projeto RAPIID da DARPA busca viabilizar sangue artificial desidratado até 2029 para combater o choque hemorrágico em até 36 minutos.
A agência de projetos de pesquisa avançada de defesa dos Estados Unidos, a DARPA, colocou em marcha no final de 2026 o programa RAPIID (sigla em inglês para ressuscitação e prevenção de disfunção induzida por isquemia), um investimento de US$ 73 milhões destinado a desenvolver versões sintéticas e desidratadas de sangue humano. O objetivo central é disponibilizar em bolsas de campo, até 2029, os três componentes essenciais de uma transfusão: plasma, plaquetas e glóbulos vermelhos capazes de permanecer estáveis em temperatura ambiente, dispensando a complexa cadeia de refrigeração.

A iniciativa é liderada pelo tenente-comandante e oficial da Marinha norte-americana Robert Murray, que acumula a experiência militar a um doutorado em fisiologia. A urgência do projeto remonta a tragédias logísticas como a ocorrida em fevereiro de 2007 no Iraque com o helicóptero de codinome Morphine 1-2, uma aeronave de rotor duplo de evacuação de baixas. Após deixar três soldados feridos em um hospital de campanha na cidade de Balad, ao norte de Bagdá, a tripulação recebeu uma ordem emergencial para cruzar em pleno dia uma área controlada por insurgentes perto de Karmah, na província de Al-Anbar. O objetivo do voo era uma rota prioritária de transporte de sangue fresco. Atingido por um míssil portátil, o helicóptero pegou fogo e caiu após 58 segundos de tentativa de controle pelo piloto, matando todos os sete tripulantes a bordo.
As perdas logísticas e a escassez crônica do insumo explicam o foco militar no desenvolvimento de substitutos. Dados clínicos demonstram que cerca de 90% das mortes evitáveis em campos de batalha decorrem de hemorragias provocadas pelo rompimento de vasos sanguíneos. No meio civil, a hemorragia desponta como a principal causa de mortalidade materna em todo o mundo. A dimensão do gargalo foi detalhada em um estudo publicado pela revista médica Transfusion em 2025: de 1,2 milhão de pacientes politraumatizados nos Estados Unidos que precisavam potencialmente de transfusão antes de darem entrada em uma unidade hospitalar, apenas 1% recebeu o sangue a tempo.
De acordo com o American College of Surgeons, o desabastecimento de hemoderivados causa aproximadamente 10 mil mortes evitáveis por ano somente nos Estados Unidos, enquanto a mortalidade global atinge a casa dos milhões. A fragilidade intrínseca do sangue humano impõe restrições severas de conservação: o sangue total dura apenas 35 dias quando refrigerado. As plaquetas, que induzem a coagulação, costumam ser guardadas em temperatura ambiente e vencem em uma semana ou menos. Já o plasma rico em proteínas e os glóbulos vermelhos transportadores de oxigênio podem ser congelados por hospitais e pelas Forças Armadas, mas, uma vez descongelados, degradam-se e estragam em poucos dias.
O tempo de resposta entre o trauma físico e o início da infusão define a sobrevivência do paciente. Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA sobre ferimentos de combate ocorridos no Afeganistão estabeleceu uma marca temporal rígida: equipes médicas dispõem de uma janela de 36 minutos para iniciar a transfusão de sangue após o trauma severo. A partir dessa janela crítica, as probabilidades de recuperação despencam de forma acentuada.
“Se algo é sobrevivível — e geralmente classificamos quase toda hemorragia como sobrevivível —, você está quase garantido a sobreviver se receber o sangue antes dessa marca de 36 minutos. Depois disso, a chance de sobrevivência começa a cair vertiginosamente.”
Sob a coordenação de Robert Murray, o programa RAPIID herda resultados de um projeto anterior da DARPA avaliado em US$ 47,5 milhões, intitulado FSHARP (soluções de campo para hemorragia com produtos de ressuscitação bioartificiais), que iniciou seus trabalhos em 2023 com testes preliminares promissores em cobaias animais. A meta de entregar bolsas funcionais em 2029 exige que Murray atue como um articulador entre ensaios clínicos paralelos junto à agência reguladora Food and Drug Administration (FDA) e o desenvolvimento de insumos complementares, desde bolsas resistentes a impactos de combate até testes laboratoriais rápidos de quantificação do sangue artificial no organismo.
Entre os três componentes transfusionais buscados pelo projeto RAPIID, o plasma representa a tecnologia mais consolidada. Esse fluido amarelado compõe cerca de 55% do volume do sangue humano total, carregando uma combinação de água, sais minerais e milhares de proteínas vitais para restabelecer o volume intravascular e mitigar sangramentos. Cientistas dominam as etapas de isolamento e desidratação por congelamento (liofilização) do plasma desde o final da década de 1930, tendo empregado essa técnica em larga escala nos campos de combate da Segunda Guerra Mundial.
O uso militar do plasma liofilizado sofreu uma interrupção drástica nos Estados Unidos durante a década de 1960, quando se identificou que o procedimento transmitia hepatite de doadores infectados aos receptores feridos. A partir de 2010, no entanto, com o avanço de métodos de triagem sorológica, filtragem e desidratação segura, as Forças Armadas dos EUA reativaram os investimentos fabris no setor. Como reflexo dessa retomada, a FDA aprovou, entre 2024 e 2026, dois formatos de plasma liofilizado para aplicação emergencial militar, sendo um deles já autorizado para uso em civis traumatizados.
Diferente do plasma, as tentativas de sintetizar ou prolongar a longevidade funcional de plaquetas acumulam insucessos técnicos desde a década de 1950. Especialistas em bioengenharia buscaram repetidamente acoplar membranas biológicas de plaquetas a partículas sintéticas inertes, enfrentando limitações físico-químicas de agregação e resposta imune. No âmbito de partículas alternativas, o modelo SynthoPlate, desenvolvido com auxílio de imagens microscópicas fornecidas pela equipe de pesquisa de Sen Gupta, utiliza peptídeos sintéticos de superfície capazes de simular o comportamento de aderência das plaquetas naturais a vasos rompidos e entre si.
Na vertente de derivados humanos, a empresa biotecnológica Cellphire desenvolveu o método mais avançado até o momento, conseguindo liofilizar plaquetas extraídas de doadores voluntários. Embora o composto da Cellphire tenha comprovado eficácia biológica e segurança em ensaios clínicos preliminares em humanos, o produto preserva a vulnerabilidade de depender inteiramente da captação prévia de doadores de sangue, levantando dúvidas operacionais quanto à capacidade industrial de suprir grandes demandas civis ou cenários de múltiplas baixas militares.
O desafio químico mais complexo do projeto reside nos glóbulos vermelhos, cuja função primordial depende da hemoglobina, proteína que transporta o oxigênio e viaja naturalmente confinada por uma membrana celular protetora. A medicina busca há mais de um século formas de administrar a hemoglobina pura sem as incompatibilidades de tipagem sanguínea entre doadores e receptores. Todavia, a remoção da membrana externa expõe o organismo a graves efeitos colaterais: a molécula de hemoglobina livre quebra-se com rapidez na corrente sanguínea, provocando lesões em órgãos vitais.
Além da decomposição acelerada, a hemoglobina desprotegida sequestra o óxido nítrico, substância produzida pelo corpo humano para promover a dilatação e o relaxamento dos vasos sanguíneos. Sem o óxido nítrico disponível, os canais vasculares sofrem contração severa. Esse mecanismo nocivo inviabilizou os transportadores de oxigênio à base de hemoglobina (conhecidos pela sigla HBOCs), classe de compostos sintéticos testada amplamente nas décadas de 1980 e 1990 sob o temor da contaminação do sangue hospitalar pelo vírus HIV.
Um dos produtos farmacêuticos mais conhecidos dessa safra foi o HemAssist, que reunia subunidades ligadas de hemoglobina para mitigar a degradação molecular rápida, suportando cerca de um ano em refrigeração comum — período substancialmente superior aos 40 dias de vida útil dos glóbulos vermelhos padrão. No entanto, o composto não neutralizou a absorção do óxido nítrico, gerando vasoconstrição crítica. Em ensaio clínico com pacientes graves, 24 dos 52 indivíduos tratados com o HemAssist morreram, contra 8 mortes entre os 46 pacientes do grupo de controle, o que forçou o cancelamento definitivo dos testes em 1998. Em 2008, uma revisão sistemática publicada pela JAMA analisou dados acumulados de HBOCs e confirmou que esses compostos triplicavam a incidência de infartos do miocárdio e elevavam o risco global de morte em 30%.
Diante dos riscos toxicológicos da hemoglobina livre, pesquisadores tentaram produzir eritrócitos completos em laboratório por meio da tecnologia denominada blood pharming. Esse método utiliza células-tronco pluripontentes induzidas para cultivar glóbulos vermelhos do zero. Em 2008, a própria DARPA fundou um programa para sintetizar sangue laboratorial a partir de células-tronco extraídas de sangue descartado de cordão umbilical humano.
A tentativa de cultivo celular esbarrou em limitações econômicas intransponíveis: o custo de produção de cada bolsa individual de sangue cultivado não pôde ser reduzido abaixo da faixa de dezenas de milhares de dólares, aliado a um rendimento quantitativo insuficiente. A DARPA cancelou seu financiamento direto e transferiu a propriedade da pesquisa para a Uniformed Services University. Mesmo que os custos diminuíssem, a solução biológica não resolveria o problema do transporte em mochilas militares, como destacou Robert Murray:
“Estas ainda são células — elas continuam exigindo uma geladeira, continuam exigindo manuseio especial.”
A superação dos impasses do HemAssist e do cultivo celular surgiu com o ErythroMer, fármaco desenvolvido pela empresa de biotecnologia KaloCyte, liderada pela executiva Elaine Haynes. O processo foi concebido inicialmente por médicos ligados à Universidade de Maryland, à Penn State e à Universidade de Pittsburgh, consistindo no reaproveitamento e purificação da hemoglobina contida em bolsas de sangue doado descartadas por prazo de validade expirado. Técnicos da KaloCyte utilizam maquinário de filtração por fluxo tangencial para concentrar e purificar a hemoglobina bruta antes de seu encapsulamento.
Diferente dos HBOCs antigos, a equipe envolve as moléculas de hemoglobina em uma nanopartícula lipídica que atua como uma membrana celular sintética. Essa cobertura artificial isola a proteína, impedindo que ela entre em contato direto com os tecidos vasculares para sequestrar o óxido nítrico, controlando a vasoconstrição letal. A estabilização mecânica permite que o composto execute a troca gasosa fisiológica nos pulmões e nos tecidos sem sofrer lise precoce.
O controle biofísico de liberação de oxigênio do ErythroMer depende de um lipídio específico chamado KC-1003, integrado à matriz da cápsula lipídica para atuar como um sensor químico de pH. Quando a nanopartícula alcança os alvéolos pulmonares, onde o ambiente apresenta pH elevado, o KC-1003 sinaliza o deslocamento de uma pequena molécula interna, abrindo espaço para a retenção do oxigênio inalado. Ao viajar até os tecidos periféricos isquêmicos e fadigados, onde a acidez reduz o pH fisiológico, o lipídio atrai essa molécula de volta, forçando a expulsão e entrega do oxigênio às células corporais.
Após o processamento fabril e concentração da hemoglobina nanoencapsulada, o composto da KaloCyte passa pela liofilização, mesmo método físico aplicado ao plasma sanguíneo. O pó resultante mantém estabilidade química por até dois anos em temperatura ambiente. Em testes laboratoriais conduzidos em 2016 com camundongos e ratos submetidos à remoção cirúrgica de até 70% de seu sangue, a infusão reconstituída de ErythroMer normalizou a pressão arterial e restabeleceu a oxigenação tissular sem deflagrar a constrição vascular que havia inviabilizado os ensaios do HemAssist.
A necessidade de transformar hemoderivados em pós transportáveis ganhou peso operacional a partir da experiência de Robert Murray em Okinawa, ilha situada a 400 milhas a sudoeste do território principal do Japão. Murray supervisionou as vulnerabilidades do banco de sangue local, infraestrutura responsável por estocar o suprimento utilizado por cerca de 27 mil fuzileiros navais, além de atender contingentes militares dispersos em uma área de 100 milhões de milhas quadradas no Pacífico sob o comando do USPACOM (Comando do Pacífico dos Estados Unidos), cuja jurisdição estende-se da Índia ocidental ao Havaí e do Ártico à Antártida.
As instalações físicas de armazenamento em Okinawa expunham um risco tático imediato observado pessoalmente pelo militar antes de concluir seu doutorado em fisiologia em 2018. O centro de distribuição de sangue fora construído exatamente ao lado do hospital militar da base, distante apenas 200 metros de todas as antenas de comunicação via satélite instaladas na ilha. O impacto de um único míssil de precisão contra o complexo de comunicações desativaria instantaneamente o tratamento médico e todo o estoque sanguíneo destinado ao teatro de operações da Ásia-Pacífico.
A fragilidade logística ganhou destaque formal com a divulgação da Estratégia de Defesa Nacional de 2018 dos Estados Unidos, documento que reorientou as prioridades das Forças Armadas do combate ao terrorismo no Oriente Médio para o risco de conflitos territoriais de alta intensidade contra China ou Rússia. Planejadores bélicos concluíram que a dependência de voos de longa distância ou de um ponto único de coleta em Okinawa inviabilizaria missões de socorro no Oceano Pacífico. Em resposta, a DARPA reiniciou as pesquisas de hemoderivados e formalizou o FSHARP em 2023, recrutando Robert Murray como vice-gerente de programas em 2024 e alçando-o a gerente titular do RAPIID em 2026, após a publicação das diretrizes do projeto em maio daquele ano.
Apesar do progresso laboratorial alcançado pela KaloCyte com o ErythroMer e pela Cellphire com a secagem de plaquetas, coordenar a produção combinada dos três componentes em larga escala impõe desafios regulatórios complexos. A avaliação é sustentada pelo médico cirurgião John Holcomb, professor de cirurgia da Universidade do Alabama em Birmingham e veterano das equipes médicas de combate em Mogadíscio, na Somália, durante a batalha que deu origem ao relato histórico de Black Hawk Down.
“Cada um desses projetos individualmente é um empreendimento massivo. Acho que eles provavelmente serão bem-sucedidos individualmente. Como usaremos esses produtos individuais, ou como combinaremos esses produtos juntos, acho que ainda está por ser visto.”
A reconstituição das substâncias no local do atendimento demanda diluição estéril precisa e recipientes adaptados ao ambiente de combate. O programa RAPIID financia a produção de bolsas de armazenamento resistentes a perfurações e o desenvolvimento de ensaios de diagnóstico em campo. Esses instrumentos são indispensáveis para que os socorristas avaliem a fração percentual de substituto bioartificial presente na circulação do ferido antes de tomarem decisões sobre novas transfusões de sangue natural nos hospitais cirúrgicos de retaguarda.
Embora impulsionada pela logística bélica do USPACOM e financiada pelo orçamento militar da DARPA, a estabilização de componentes sanguíneos desidratados apresenta implicações diretas para a gestão de serviços de trauma civil. Em territórios com grandes barreiras geográficas e infraestrutura rodoviária assimétrica — realidade comum no atendimento pré-hospitalar de urgência e no socorro aéreo em regiões distantes de capitais —, a dependência de hemoderivados congelados limita a atuação de equipes de resgate.
A disponibilidade de glóbulos vermelhos como o ErythroMer, capazes de resistir por dois anos em prateleiras sem refrigeração e de transferir oxigênio sem restrições de tipagem sanguínea, pode redefinir o protocolo padrão de atendimento a choques hipovolêmicos. Caso o cronograma do RAPIID alcance as metas de testes humanos exigidas pela FDA até 2029, as tecnologias desenvolvidas para contornar ataques com mísseis em Okinawa e quedas de helicópteros em Karmah poderão finalmente preencher o vácuo responsável pelas 10 mil mortes anuais nos prontos-socorros urbanos e pela morte de milhões de pessoas sem acesso a sangue estável pelo mundo.
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