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Novo telescópio espacial da NASA usará espelhos deformáveis e máscaras de silício para fotografar exoplanetas semelhantes a Júpiter e preparar busca por Terra 2.0.
A NASA está prestes a lançar o Nancy Grace Roman Space Telescope, equipado com o primeiro coronógrafo "ativo" a operar no espaço. A missão promete registrar as primeiras fotografias de exoplanetas semelhantes aos do nosso próprio Sistema Solar, utilizando uma câmera de campo amplo com cerca de 300 megapixels que oferece um campo de visão aproximadamente 100 vezes maior do que as exposições mais amplas do Telescópio Espacial Hubble mantendo resolução equivalente.

Homenageando a astronômica Nancy Grace Roman, primeira chefe de astronomia da agência espacial norte-americana, o novo observatório terá capacidade para catalogar cerca de 100.000 novos exoplanetas por meio do efeito de distorção que a gravidade desses corpos exerce sobre a luz de estrelas mais distantes, além de fornecer dados inéditos sobre a matéria escura e a energia escura. O cientista Javier Viaña, da Universidade Harvard, que teve dois projetos selecionados para o concorrido primeiro ano de observações do telescópio, compara esse avanço à transição de "entrevistar um punhado de pessoas" para "conduzir um censo global".
Além da câmera de campo amplo, o observatório carrega um segundo instrumento dedicado à fotografia direta: um coronógrafo de última geração focado em bloquear o brilho estelar de um sistema por vez para revelar planetas menores, mais escuros e mais próximos de suas estrelas hospedeiras. Para a engenharia aeroespacial, trata-se de um marco decisivo no roteiro de exploração exoplanetária, servindo de ponte direta para missões ainda mais ambiciosas nas próximas décadas.
"Espero que ele seja lembrado por ser o degrau crítico para encontrarmos a Terra 2.0", afirma Brandon Creager, engenheiro-chefe de mecânica do instrumento no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA.
O conceito de coronógrafo em missões espaciais não é novo, estando presente em observatórios renomados como o Hubble e o James Webb Space Telescope (JWST). No entanto, essas arquiteturas anteriores utilizam sistemas ópticos estáticos para bloquear a luz ofuscante das estrelas. Essa abordagem tradicional reduz o brilho estelar, mas é comparável a colocar o polegar sobre a lente de uma lanterna para tentar enxergar um pirilampo em um quarto escuro: a lâmpada principal fica coberta, mas a luz residual escapa pelas bordas.
Dentro de um telescópio espacial tradicional, essa luz estelar espúria vaza pelas extremidades dos componentes mecânicos internos ou se espalha devido a imperfeições microscópicas nas superfícies e nos revestimentos dos espelhos. O resultado óptico são speckles — pequenos pontos e manchas de luz refletida que podem ocultar a presença de um exoplaneta fraco ou, pior, criar falsos positivos que se passam por planetas inexistentes.
Com o coronógrafo ativo do Nancy Grace Roman Space Telescope, a equipe de engenharia do JPL buscou eliminar precisamente essas manchas de dispersão óptica. De acordo com Brandon Creager, a nova instrumentação dá à comunidade científica "a capacidade de ver planetas que não fomos capazes de ver fisicamente antes", contornando as limitações físicas dos espelhos rígidos tradicionais através de ajustes dinâmicos feitos em tempo real no espaço.
Para resolver o problema da dispersão de luz estelar, o observatório **Roman** implementa uma técnica conhecida como controle ativo de frente de onda (active wavefront control). Antes de cada observação científica, o instrumento mede a quantidade de luz residual vazada no sistema óptico e ajusta dinamicamente a geometria interna para anulá-la. Esse processo é realizado por meio de dois **espelhos deformáveis** integrados ao caminho óptico do coronógrafo.
Cada um desses espelhos é construído com uma lâmina ultra-fina e flexível de vidro posicionada sobre uma grade em formato de xadrez contendo **48 por 48 atuadores** — pequenos pistões mecânicos acionados por voltagem elétrica. Ao aplicar correntes elétricas precisas, os atuadores se contraem e puxam frações microscópicas da superfície do espelho para trás, agindo como milhares de dedos invisíveis esculpindo a ótica de acordo com a necessidade da imagem.
A precisão mecânica envolvida nesses espelhos atinge escalas subatômicas. Conforme detalhado por **Ilya Poberezhskiy**, engenheiro de sistemas do projeto do coronógrafo no **JPL**, cada setor individual do espelho pode se deformar em até **0.5 micrómetros** — dimensão equivalente a apenas um quarto do tamanho de uma bactéria E. coli. Mais impressionante ainda, o sistema realiza incrementos de ajuste tão diminutos quanto **10 picômetros**, escala que corresponde a aproximadamente um décimo do diâmetro de um átomo de hidrogênio.
Ao mover esses atuadores para posições milimetricamente calculadas, os espelhos criam uma frente de onda ativa capaz de cancelar as ondas de luz indesejadas que chegam da estrela hospedeira. Esse efeito óptico funciona de forma análoga aos fones de ouvido com cancelamento ativo de ruído, porém manipulando comprimentos de onda de luz visível e infravermelha em vez de ondas sonoras no ar.
O resultado do cancelamento de luz é a criação de uma área circular escura ao redor da estrela observada, chamada pelos cientistas da missão de região em formato de rosca ("doughnut"). Segundo **Ilya Poberezhskiy**, dentro dessa zona sombreada a iluminação estelar é suprimida a ponto de permitir que exoplanetas extremamente fracos sejam finalmente detectados pelos sensores digitais.
Em termos numéricos, espera-se que o coronógrafo do telescópio **Roman** aumente a sensibilidade de detecção de exoplanetas contra o brilho de suas estrelas em um fator de até **1.000 vezes** em comparação com os coronógrafos em operação no **Hubble** e no **JWST**. Esse ganho exponencial abre espaço para observar corpos celestes que antes permaneciam invisíveis aos instrumentos humanos.
Além dos espelhos deformáveis com atuadores de precisão picométrica, o **Nancy Grace Roman Space Telescope** recorre a máscaras físicas posicionadas na trajetória da luz. Essas placas padronizadas têm a função de interceptar e bloquear fisicamente os fótons estelares que se chocam contra sua estrutura antes que consigam atingir os detectores da câmera.
Entre as inovações materiais desenvolvidas para o telescópio está a chamada **"grama de silício"** (silicon grass), uma estrutura composta por uma densa floresta de pontas microscópicas esculpidas sobre as máscaras ópticas. Essa geometria microscópica é configurada para absorver fótons de luz indesejados, impedindo que eles ricocheteiem no interior do telescópio e atinjam o sensor por acidente.
Quando a luz estelar incide sobre a estrutura de grama de silício, os fótons penetram no emaranhado de agulhas microscópicas e passam a ricochetear sucessivamente entre as lâminas em profundidade, ficando aprisionados no material. Conforme explica o engenheiro **Ilya Poberezhskiy**, "uma vez que a luz entra ali, ela nunca mais sai", garantindo que a reflexão parasita seja praticamente zerada.
A combinação coordenada entre as máscaras de grama de silício e os dois espelhos deformáveis cria uma sucessão de portões ópticos projetados para guiar a luz fraca vinda diretamente do exoplaneta até o detector final da câmera, isolando-a completamente da iluminação da estrela central.
O aparato tecnológico do telescópio **Roman** deve inaugurar uma nova fase na fotografia direta de exoplanetas. Quase todos os exoplanetas fotografados diretamente até hoje por observatórios terrestres ou espaciais são mundos jovens e gigantescos, sem paralelo com os planetas do nosso Sistema Solar. Trata-se de corpos celestes com várias vezes a massa de Júpiter, que ainda brilham com o calor residual de sua formação e orbitam a dezenas ou centenas de vezes a distância entre a Terra e o Sol.
A razão para essa seleção de descobertas é técnica: planetas jovens, maciços e distantes emitem radiação infravermelha própria intensa, tornando-se alvos relativamente fáceis de visualizar fora da zona de maior ofuscamento estelar. O observatório **Nancy Grace Roman**, por sua vez, foi projetado para registrar pela primeira vez a imagem direta de um autêntico análogo de Júpiter — um planeta gasoso maduro com massa e distância orbital comparáveis às do Júpiter do nosso Sistema Solar.
Diferente dos exoplanetas conhecidos como "Júpiters quentes", um análogo real de Júpiter é um gigante gasoso frio que esfriou ao longo de bilhões de anos. Em vez de emitir calor e luz próprios de forma proeminente, esse tipo de planeta brilha principalmente ao refletir a luz de sua estrela hospedeira. Até o momento, astrônomos deduziam a existência desses mundos apenas medindo a oscilação gravitacional que eles provocam em suas estrelas; o **Roman** captará a luz refletida pelo próprio planeta.
A professora de astronomia **Meredith MacGregor**, da **Universidade Johns Hopkins**, que garantiu tempo de observação no primeiro ano de operações do telescópio, destaca a mudança de paradigma analítico proporcionada pelo novo instrumento:
"Não estamos olhando para a estrela. Não estamos olhando para o efeito do planeta na estrela. Estamos realmente olhando para o planeta, e isso é extremamente poderoso", pontua Meredith MacGregor.
A quantidade de dados gerados pelas câmeras do telescópio promete desafiar a capacidade de processamento das equipes terrestres. A própria **Meredith MacGregor** admite apreensão com o volume de dados: "Estou honestamente um pouco aterrorizada sobre como todos nós vamos lidar com isso, porque acho que é muita informação. Acho que as pessoas legitimamente ainda estarão trabalhando em dados do **Roman** daqui a décadas".
Apesar da capacidade sem precedentes do telescópio, os pesquisadores ressaltam que o público não deve esperar fotos em altíssima resolução com detalhes superficiais. Os análogos de Júpiter captados pelo coronógrafo do **Roman** aparecerão nas imagens como pequenos agrupamentos de pixels no sensor digital. Contudo, essa quantidade de luz será suficiente para realizar análises de espectrometria.
Através da decomposição das diferentes frequências de luz captadas pelo coronógrafo, os astrônomos poderão determinar a composição química atmosférica do exoplaneta. Segundo **MacGregor**, essa medição transforma um simples ponto luminoso em um mundo real, fornecendo pistas sobre a superfície planetária e a potencial habitabilidade do sistema.
Durante as primeiras fases operacionais do telescópio **Nancy Grace Roman**, engenheiros e cientistas no **JPL** realizarão testes críticos no espaço. A equipe precisará alinhar a estrela alvo exatamente no centro das máscaras do coronógrafo, deformar dinamicamente os espelhos para "cavar" a região sombreada em forma de rosca e manter essa estabilidade óptica enquanto a espaçonave se desloca na órbita espacial e passa por variações térmicas ativas.
Os dados operacionais e o aprendizado obtido com o coronógrafo do **Roman** servirão de base direta para o planejamento do **Habitable Worlds Observatory (HWO)**, um projeto conceitual da **NASA** focado em isolar a luz de mundos rochosos similares à Terra orbitando estrelas parecidas com o Sol — alvos em que a estrela hospedeira é mais de **10 bilhões de vezes mais brilhante** do que o próprio planeta.
O engenheiro **Brandon Creager**, que trabalha no desenvolvimento do instrumento do telescópio **Roman** desde **2018**, enxerga a missão como o ponto culminante de anos de engenharia de precisão voltada à exploração cósmica profunda:
"Não são muitas as pessoas que podem dizer: 'Eu construí algo e isso está tirando uma foto de um planeta que está em uma estrela a 50 ou 100 anos-luz de distância'", reflete Brandon Creager.
Para a comunidade astronômica global e pesquisadores de instituições internacionais, o sucesso da tecnologia de controle ativo de frente de onda do telescópio **Nancy Grace Roman** provará que é possível dominar a luz estelar em órbita. Embora os exoplanetas detectados nas primeiras imagens apareçam apenas como minúsculos pontos de luz em uma tela, a verdadeira conquista da engenharia aeroespacial estará na escuridão calculada que os cientistas conseguiram construir ao seu redor.
Fontes:
Após um ano de desenvolvimento, o X de Elon Musk lança novo app Android em Kotlin e Jetpack Compose, prometendo velocidade e novos recursos.
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